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Eleanor Rigby, parte 1

09/10/2009

Na década de 1990, houve um projeto de um livro com contos de ficção científica baseados em canções dos Beatles. Nem sei se submeti meu conto ao concurso, mas o escrevi, escolhendo Eleanor Rigby como minha inspiração (mais tarde o submeti a um concurso promoviso por uma revista de RPG e tirei o primeiro lugar). Assim como a música, cujo tema principal é a solidão, a história narra as últimas horas da tripulação de uma nave espacial que está ponto de ser destruída. Relendo o texto, ele não me parece muito bom, mas também não jogaria ele no lixo (fiz umas pequenas edições para postá-lo aqui). :]


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Sub: Relatório Oficial

Capitão Carlos Alfanj Alencar, Oficial Comandante, NMS Eleanor Rigby

Este pode vir a ser o último relatório da minha vida. A situação na qual nos encontramos agora é, no mínimo, desesperadora: somos a única nave restante do nosso comboio, estamos com extensas avarias e temos uma flotilha de pelo menos 15 naves em nosso encalço. Eu reconheci a configuração delas. São kashtranii. Ou seja, só se darão por satisfeitos quando virem os nossos cadáveres.

Embora me constranja dizer isto, estamos vivos mais por causa de sorte, do que de qualquer brilhantismo tático da minha parte. Mas estou pulando a frente dos acontecimentos. É melhor explicar como tudo ocorreu do princípio, afinal, esta será, bem provavelmente, a única versão deste ataque que o governo da Terra vai ter, se é que vai tê-la.

Nosso comboio era constituído por cinco cruzadores de batalha classe Regina: Joana d’Arc, Anita Garibaldi, Mata Hari, Florence Nightingale e a nossa Eleanor Rigby. Com todo este poder de fogo, não estávamos preocupados com nenhum tipo de ataque. Ninguém seria tão tolo a ponto de atacar cinco naves de guerra altamente sofisticadas. Além do mais, o ponto de conexão transpacial que estávamos usando era em um sistema desabitado, Teta Eridani, de nenhum interesse para qualquer uma das potências galácticas. Aqui começa a interferência caprichosa da sorte: Eleanor estava com um pequeno desajuste no gerador transpacial, o que nos deixava defasados 8.13 segundos em relação ao resto do comboio. Em uma situação normal, como esta parecia ser, isto não era preocupante. Por isso, foi com grande espanto que vi os sensores da Eleanor registrarem as explosões de Joana e Florence enquanto emergíamos no espaço normal. Tudo ficou claro no momento seguinte, ao terminarmos a transição e avistarmos a flotilha de 20 naves. Elas deviam estar esperando no ponto de conexão. Quando as nossas naves se materializaram, os kashtranii abriram fogo. Com seus escudos de defesa desativados para a viagem transpacial, as Reginas foram uma presa fácil.

O intervalo entre a primeira e a segunda onda de ataque nos deu tempo de ativar os escudos e os sistemas de defesa. Mas antes que pudéssemos fazer qualquer coisa, os kashtranii abriram fogo de novo. Anita e Mata Hari, já extremamente avariadas, sucumbiram ao segundo ataque. Nós também sofremos grandes avarias. A mais crítica foi o gerador transpacial, sem o qual nossas chances de escapar haviam se reduzido drasticamente. Neste momento, minhas opções eram poucas e nenhuma delas muito boa: podíamos atacar a flotilha, o que resultaria na nossa sumária destruição; podíamos nos render, uma vez mais resultando na nossa destruição, já que kashtranii não fazem prisioneiros; ou podíamos fazer uma “retirada estratégica”, mas para isso precisaríamos de uma “distração”. Foi quando a sorte sorriu para nós uma vez mais. Eu havia reconhecido as classes das naves kashtranii; eram todas antigas, usavam uma tecnologia de sensores ligeiramente datada (para este tipo de missão, não deveria ser um problema), que não primava pela resistência. Foi então que decidi ejetar o reator de fusão secundário e detoná-lo. Uma explosão dessa magnitude a uma distância tão curta causaria algum dano aos kashtranii e, mais importante, fundiria a maior parte da rede de sensores deles, deixando-os virtualmente cegos.

Meu plano funcionou, embora creia que deva descrevê-lo como “pírrico”. Durante o tempo que levamos para implementá-lo, sofremos mais danos, e a própria explosão do reator nos causou avarias. Pelo lado bom, conseguimos destruir dois lanceiros kashtranii e ainda tínhamos nossos sensores.

Com a flotilha inimiga em desordem (na confusão inicial, uma colisão destruiu mais duas naves e avariou seriamente uma terceira), rumamos para o planeta mais próximo, Teta Eridani VII, um gigante gasoso. Meu objetivo era usar o planeta como refúgio. Contudo, um problema no sistema de navegação me impediu de prosseguir com este plano. Ao invés de nos fazer mergulhar na atmosfera, o computador nos colocou em órbita do planeta. Ao final de quatro horas, emergiremos do outro lado novamente, e aí os kashtranii, que já deverão ter recuperado pelo menos alguns dos sensores, irão nos localizar.

Na situação atual, o desenlace deste engajamento é bem claro para mim. Mas não posso deixar nada transparecer. A moral da tripulação ainda está boa e é preciso que se mantenha assim. Confio nos meus oficiais superiores para botar Eleanor de pé novamente. Quem sabe? Talvez consigamos sair desta.

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