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Eleanor Rigby, parte 3

11/10/2009

<login>06:13:28 / 24-06-2312

Sub: Arquivo Pessoal

Tenente Comandante Sarah Moon-Riding-High-In-The-Sky, Médica-Chefe, NMS Eleanor Rigby

Catástrofe. É a única maneira de descrever o que está acontecendo. A enfermaria está um caos. Alguém entrando aqui agora certamente diria que nós fomos uma das áreas atingidas pelo ataque kashtranii. Mas isto não aconteceu. O estado atual se deve ao fato de estarmos superlotados: há, pelo menos, o triplo de pacientes que a enfermaria comporta. Todo o meu staff está até o pescoço de trabalho — quer dizer, aquela parte dele que não é paciente também. Todos estão estressados e no limite de suas capacidades. Uma das enfermeiras, Åsa, teve um ataque histérico mais cedo; ela ficou impressionada com todos aqueles feridos que estavam chegando. Dos 650 tripulantes, 83 morreram e 177 estão com vários graus de lesão, sendo que 32 deles estão além de qualquer ajuda.

Agora as coisas acalmaram um pouco. Mas com essa quantidade de feridos, tive de estabelecer um critério de triagem não muito preciso. Dividi os ferimentos em três classes: leves, médios e sérios. Tripulantes feridos levemente, recebiam um curativo rápido e eram mandados de volta aos seus postos. Aqueles com ferimentos médios, eram mantidos na enfermaria e recebiam um tratamento mais completo. Já os sérios, eram encaminhados para a cirurgia, quando esta era possível. Mesmo com este arranjo as coisas escalaram para um nível tal de precariedade, que fui forçada a cancelar as operações e liberar analgésicos para todos. Se não posso curá-los, pelo menos vou aliviar suas dores.

Com este descanso que tive agora, comecei a pensar em uma maneira de salvar pelo menos alguns dos feridos. Soube que uma das shuttles executivas ainda está funcionando, por isso vou sugerir ao capitão que transporte um grupo de feridos e uma tripulação mínima para ela e à lance. A meu ver, eles poderão se esconder na atmosfera do planeta e esperar a ajuda chegar. Assim, alivio parte da angústia: quis ser médica para salvar vidas, e não para vê-las definhar, impotente para ajudar.

Estranhamente, tudo isso me fez lembrar de você, avô. Estranho porque desde a sua morte, sete anos atrás, eu estive envolvida demais em meu trabalho para lembrar de qualquer coisa. Mas agora lembrei daquele dia, há dezoito anos, em que saí de casa para ir para a Academia Naval. Você me disse, naquele seu tom áspero que parecia carregar a sabedoria de milhares de gerações, que não era natural alguém morrer longe de sua casa e de seu povo. Você sempre foi sutil como um búfalo, avô. Sabia que eu ia morrer no espaço, não é? Bom, parece que a minha hora chegou. Só espero que você esteja me esperando, velho Navajo.

<logout>06:16:31 / 24-06-2312

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