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O sono da razão, parte 1

16/10/2009

O apagar das luzes do quarto era o início de um suplício para Lucas. Ao ser engolfado pela escuridão, o menino de 10 anos cruzava o espaço entre o interruptor e a sua cama em dois grandes passos e um salto, o qual lhe permitia subir no colchão sem que suas pernas estivessem próximas do vão entre a cama e o chão e, assim, vulneráveis a qualquer monstro que porventura habitasse aquele recesso tenebroso. Os dois cobertores, um de algodão e outro de lã, eram seus escudos contra qualquer ataque oriundo do breu que o cercava. A crença de Lucas nos poderes defensivos daqueles tecidos era tanta que muitas vezes ele ficava encharcado de suor, mais confortável em sentir calor do que acreditar-se desprotegido contra os horrores que o espreitavam. Ele os puxava até sua cabeça, deixando apenas os olhos de fora, de maneira que pudesse observar qualquer ação nefasta direcionada a si, mesmo sabendo que se visse algo provavelmente teria um troço.

Mas a principal fonte de terror para o garoto não era visual, e sim auditiva. A combinação da escuridão com a calma do tardar da noite fazia com que uma gama enorme de ruídos, normalmente afogados na tempestade sonora do cotidiano, viesse à tona. Rangidos, crepitares, assobios, silvos, zumbidos, baques e afins assumiam um ar sinistro que alimentava a imaginação já propensa a excessos de Lucas, a despeito do fato que, sob a luz do Sol, o menino era capaz de encontrar explicações simples para a origem de cada um deles. Em sua mente, cada minúsculo barulho sinalizava uma ameaça à sua integridade física e mental, fosse na forma de um monstro horrendo armado de garras e presas ou na de um espírito desencarnado capaz de assustá-lo até a morte.

Entre a imensa variedade de terrores sonoros, um em particular superava os outros em capacidade de induzir o medo em Lucas: a estranha percussão de um livro. A definição em si já era bastante exótica e várias vezes, quando se lembrava disso durante o dia, o garoto se espantava com a sua capacidade de interpretação daquele fenômeno. Parecia que alguém, ou mais provavelmente algo, pegava um livro grande e grosso, de centenas de páginas, o vergava e então o soltava sobre uma superfície rígida, como a de uma mesa.

Durante os curtos e infrequentes momentos de lucidez que emergiam do mar de terror no qual a mente do menino se afogava durante a noite, Lucas percebia que aquela era uma atividade no mínimo estranha para uma criatura sobrenatural realizar. No entanto, a força que empurrava esses pensamentos racionais era logo tragada de volta para as profundezas do oceano de medo e a jovem e imaginativa mente descobria outros motivos para justificar a confusa performance. As duas principais versões para o fato eram a de que a natureza surreal daquele ritual mostrava ser a entidade uma ordem de grandeza mais perigosa do que os horrores “normais” que habitavam o mundo, como vampiros ou fantasmas. A outra era de que o monstro fazia aquilo para torturar ainda mais o já assustado garoto, demonstrando assim ser capaz de grande crueldade e, novamente, representar uma ameaça muito maior que reles demônios e duendes.

One Comment leave one →
  1. Luiz Ricon permalink
    16/10/2009 11:59

    Muito boa introdução! Já estou curioso para ler o próximo.

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