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O sono da razão, parte 2

16/10/2009

Lucas não passava por esse calvário todas as noites, é verdade. De fato, a calmaria era mais frequente que a tempestade e mesmo nas ocasiões mais conturbadas o cansaço acabava ganhando a longa batalha com o medo pela mente do menino, que então era acolhido por um sono redentor. Mas desde que a assombração do livro havia começado, as forças da irracionalidade tinham ganhado novo alento e a guerra pela consciência do menino se tornava mais longa e acirrada. Com o tempo, o embate noturno começou a invadir os domínios do dia e Lucas percebeu que o pavor que o consumia à noite começava a enraizar-se sob a luz do Sol. Apesar disso, ele conseguia manter as aparências e nem seus amigos nem seus pais notavam qualquer mudança em seu comportamento. Contudo, o menino sabia que em breve não haveria como continuar escondendo o problema.

Essa era uma das preocupações que atormentavam a pobre criança naquela noite. Havia chovido muito durante o dia e uma fina garoa persistia, acompanhada de ventania e frio. O clima forçou Lucas a fechar sua janela, o que contribuiu para inquietar ainda mais sua mente. Mas mesmo com tudo isso, aquela parecia ser uma noite calma. O menino já cambaleava em direção ao mundo dos sonhos e seu coração não estava tão disparado quanto antes. Infelizmente, a sonolência foi quebrada pelo ritmo infernal do livro. Como sempre, o som vinha da sala, atravessava o corredor, entrava no quarto e chegava aos ouvidos amedrontados do garoto. A chance de um sono tranqüilo desapareceu, a taquicardia voltou e o inferno pessoal de Lucas ressurgiu de maneira clamorosa.

Porém, algo inesperado também aconteceu. Dos recônditos da alma daquele menino, surgiu uma luz. Não era uma fonte de iluminação propriamente dita, e sim um impulso que logo coalesceu em um raciocínio claro e simples: aquilo não podia continuar. Lucas percebeu que permanecer escravo daquele medo o levaria à infelicidade, como de fato já começava a fazer. Ele precisava confrontar a criatura, ter certeza de sua existência ou obter o alívio de concluir que não havia qualquer coisa de sobrenatural naquele ruído. A realização desse fato inundou o menino com um senso de propósito e este se traduziu em um ato que invocou toda a coragem que Lucas possuía – levantar o cobertor. O garoto não sabia se o súbito calafrio que sentiu era devido ao frio que avançou rapidamente sobre ele ou se era apenas mais uma manifestação do pavor que o consumia, mas o fato era que ele havia posto de lado sua única camada de proteção contra o desconhecido.

Descer da cama foi outro passo complicado. Lucas achava que deveria simplesmente baixar seus pés até o chão, contudo, sua recém-descoberta coragem ainda não era grande o suficiente para que ele encarasse esse curso de ação seriamente. A única opção seria pular o mais longe possível, frustrando assim os planos dos monstros que viviam embaixo da cama de agarrar suas pernas. Lucas se preparou e, meio atrapalhadamente, jogou seu corpo para longe do colchão, aterrisando de maneira pouco graciosa a 30 centímetros do local onde dormia – uma distância pequena, sem dúvida, mas para ele, uma vitória. Com os já praticados dois passos, chegou próximo à porta, onde seu instinto foi o de ligar a luz. Ele sabia que ao acionar a lâmpada de 60 watts, as sombras que povoavam sua imaginação desapareceriam e era bem provável que até parasse de ouvir o som do livro. Entretanto, esse não era seu objetivo. A missão à qual havia se proposto era de confronto e não de fuga. Assim, com certo pesar, Lucas deteve sua mão antes que esta chegasse ao interruptor e saiu de seu quarto.

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