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O sono da razão, parte 3

17/10/2009

No corredor, a sinistra batida chegava com mais clareza aos ouvidos do menino. A distância que o separava da sala era de apenas cinco metros, mas poderiam ser cinco quilômetros dada a dificuldade que Lucas teve para cruzá-la. Com cada trêmulo passo que dava, a mente hiperativa conjurava explicações cada vez mais mirabolantes para a origem da percussão, de tal maneira que quando o garoto finalmente chegou à entrada da sala, ele estava convencido que todo o problema era resultado de uma conspiração sem precedentes da comunidade de monstros, cujo único objetivo era atormentá-lo.

Foi nesse estado que Lucas olhou o breu da sala e para seu profundo terror viu um vulto esbranquiçado. Além de confirmar que o ruído não era uma alucinação, aquele evento adicionava mais uma camada de pavor à situação. Para entender o porquê disso, é preciso voltar dois anos no tempo para uma noite na qual Lucas assistia a um filme de suspense, cuja história girava em torno de um assassinato ocorrido na casa de veraneio de um casal milionário. Não havia qualquer detalhe sobrenatural na narrativa, mas em determinado momento, um dos personagens prestara depoimento na polícia e seu relato se tornara uma cena dentro do filme. Ele dissera que em certa hora da noite, quando estava no quintal da casa, vira um vulto passar ao longe. A dramatização desse trecho mostrara uma figura vagamente humanóide e fora de foco que, em conjunto com o avançado da noite e a já sabida imaginação fértil do menino, causara extrema inquietação nele. Desde essa data, Lucas sempre associava a palavra ‘vulto’ a algo do outro mundo e de natureza, quase sempre, ruim.

A descoberta paralisou o garoto, que ficou vários minutos estático, ouvindo apenas a harmonia cacofônica do pulsar rápido do seu coração com a batida sequencial do livro. Se a aparição havia percebido a chegada do menino, ela não parecia demonstrar. O descaso do ser tirou Lucas de seu estupor e lhe deu um pouco de coragem para fazer algo que contrariava o seu instinto de sobrevivência: falar. Ele tinha certeza de que no momento em que abrisse a boca, a coisa pularia sobre ele e o despedaçaria – ou algo pior. Com a voz rouca e falseante, Lucas emitiu um tímido ‘oi’, seguido por um igualmente débil ‘tem alguém aí?’. Nada aconteceu. Sem saber se aquilo era um bom ou mau sinal, o menino repetiu o chamado, dessa vez com mais força. Nada continuou acontecendo.

A situação, não fosse um pesadelo de proporções épicas para Lucas, seria intrigante. Para ele, ao ignorá-lo, a criatura poderia estar tentando atraí-lo para mais perto e assim facilitar o ataque. Contudo, teria sido muito mais fácil para o monstro permanecer escondido e avançar sobre ele de surpresa. Nada parecia fazer muito sentido naquela cena, mas as incongruências foram o primeiro sinal para Lucas de que as coisas não eram exatamente como ele as imaginava. A constatação moveu os pés do menino sem que ele se desse conta, fazendo-o se aproximar do vulto. À medida que chegava mais perto, o garoto discernia novos detalhes: a entidade estava próxima à mesa, como se estivesse sentada em uma cadeira; seu aspecto esbranquiçado era oriundo de uma roupa muito parecida com uma camisola; a criatura realmente parecia estar de posse de um livro grosso. O último passo pôs Lucas cara a cara com o vulto…

Era sua mãe.

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