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O sono da razão, conclusão

18/10/2009

O choque da constatação acertou o menino com a força de um banho frio de cachoeira e lavou todas as emoções conflitantes que o dominavam, deixando apenas surpresa e curiosidade. Observando melhor a cena, Lucas percebeu que sua mãe, apesar de parecer desperta, agia como um zumbi. Ele já tinha ouvido falar disso, chamava-se sonambulância ou sonambulismo e fazia com que as pessoas andassem dormindo. Sua mãe não estava caminhando, mas estava absorta no livro sobre a mesa, o qual ela abria aleatoriamente e depois fechava com um baque, gerando assim o ruído que atormentava seu filho há meses.

Apertando os olhos e usando a pouca luz que entrava pela janela, Lucas leu o título do livro, escrito em grandes letras brancas na capa: Direito Constitucional. Sua memória, livre da pressão de relembrar detalhes aterrorizantes de filmes e histórias, trouxe à tona as muitas tardes em que vira sua mãe debruçada sobre aquele livro, estudando avidamente cada detalhe contido em suas páginas. Ela se preparava para um concurso e o menino recordou que a data da prova estava próxima. Na sua mente, as peças do quebra-cabeça foram se juntando e tudo começou a fazer sentido. Atribulada e ansiosa com o teste, sua mãe havia se dedicado de corpo e alma aos estudos, a tal ponto que mesmo quando dormia, ela pensava no assunto e tentava continuar seu esforço para conseguir um emprego público.

Lucas percebeu que seu coração havia parado de bater tão violentamente e os arrepios que sentia agora eram causados por uma corrente de ar que vinha da janela aberta. Calmo, ele tocou no braço da sua mãe e chamou por ela. A mulher piscou, olhou para o livro e depois para o filho. Confusa, ela perguntou para o garoto o que estava acontecendo e ele lhe explicou. Um pouco envergonhada com a situação, a mãe de Lucas o levou até seu quarto, o pôs na cama, lhe deu um beijo e lhe desejou boa noite. O menino fechou os olhos e em poucos segundos estava dormindo. Um pequeno sorriso ainda pairava em seus lábios.

Nunca mais as noites de Lucas foram as mesmas. O medo e o terror que o acompanhavam se tornaram fantasmas do passado. Ao longo dos anos ainda havia noites em que ele não conseguia dormir, mas estas eram fruto de provas, paixões correspondidas e não correspondidas, vésperas de viagens e prazos apertados no trabalho, entre outras razões menos freqüentes. Já adulto, ele relembrava seu suplício infantil com humor em rodas de bar e o caso da mãe sonâmbula se transformou numa anedota pessoal que ele usava para quebrar o gelo em encontros. Certa vez, durante uma visita a um museu, Lucas viu uma reprodução de um quadro de Goya, O sono da razão desperta demônios. Ele ficou maravilhado com a obra. Era como se o pintor espanhol tivesse vislumbrado séculos antes o tormento pelo qual ele tinha passado. A identificação foi tanta, que Lucas adquiriu uma cópia para seu apartamento e de vez em quando a fitava com um misto de satisfação, por ter vencido seus medos de infância, e assombro, por lembrar quão poderosa era sua imaginação.

Ele nunca mais ouviu o som do livro.

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