Eleanor Rigby, conclusão

<login>07:39:17 / 24-06-2312

Sub: Comunicado Geral

From: Capitão Carlos Alfanj Alencar, Oficial Comandante, NMS Eleanor Rigby

To: All

“Aqui é o capitão falando. Todos vocês que estão me ouvindo agora sabem que a nossa situação não é das melhores. Em alguns minutos estaremos enfrentando uma flotilha kashtranii. Muitos devem imaginar que estamos nos encaminhando para a morte certa. Bom, não posso afirmar com certeza que esse não é o nosso caso, mas gostaria que vocês se lembrassem que já existiram pessoas em situações tão, ou até mais adversas que a nossa, que conseguiram triunfar. Por exemplo, Henrique V e o exército inglês na Batalha de Azincourt; uma situação que, guardada as devidas proporções, assemelha-se à nossa. O que estou querendo dizer é que vocês não devem perder as esperanças, nem tão pouco deixar que isto abale sua confiança em si mesmos. Mais do que nunca, nós dependemos uns dos outros. Não desistam!

Para aqueles de vocês que temem que os seus amados não recebam suas mensagens, lembrem-se de que todos os arquivos do nosso computador, incluindo as mensagens gravadas nas últimas horas, foram comprimidos e baixados para os computadores da shuttle, que acabou de ser lançada. O que quer que nos aconteça, não os impedirá de recebê-las.

Gostaria de aproveitar este momento para dizer também que jamais tive a honra de servir com uma tripulação mais competente e distinta do que esta. Se todos os capitães solares tivessem ao seu dispor um grupo tão especial de pessoas, a Terra já teria colônias por toda a galáxia.

Para finalizar, vou retornar a Henrique V. Lançando mão de licença poética, adaptarei algumas palavras que ele dirigiu aos seus homens momentos antes do início da batalha:

“Este é o dia de São João, aquele que sobreviver a hoje e retornar para casa, se orgulhará quando este dia for mencionado. Aquele de nós que viver após este dia e chegar à velhice, irá festejar anualmente e, na véspera, dirá a seus vizinhos ‘Amanhã é o dia de São João.’ Então despir-se-á de sua camisa e mostrará suas cicatrizes, dizendo ‘Estes ferimentos, eu consegui no dia de São João.’ Velhos esquecem, mas ele lembrará, com detalhes, os feitos daquele dia; e nossos nomes, tão familiares para ele quanto os termos do cotidiano, serão claramente lembrados. Esta história será passada de pai para filho, o dia de São João será lembrado para sempre, e nós com ele. Nós, irmãos, pois aquele que tiver seu sangue derramado hoje, será meu irmão. E aqueles na Terra, se acharão amaldiçoados por não estarem aqui, sentindo-se diminuídos quando falarem com alguém que lutou no dia de São João.”

Que a sorte continue nos sorrindo, meus irmãos.

<logout>07:42:23 / 24-06-2312

<login>07:43:21 / 24-06-2312

Sub: Comunicado Geral

From: Controle de Navegação, NMS Eleanor Rigby

To: All

“Atenção todas as estações, dez segundos para liberar Teta Eridani VII. Mantenham-se a postos para engajar o inimigo imediatamente após a liberação do planeta.

5… 4… 3… 2… 1…

Eleanor Rigby, parte 5

<login>07:20:45 / 24-06-2312

Sub: Correio Pessoal

From: Alferes Paul Winscott, Oficial Júnior de Comunicações, NMS Eleanor Rigby

To: Martha Haeller-Winscott, Talahassee, USNA

Mãe,

Quando… Se… você receber isto, é porque eu estou morto.

Nosso comboio foi emboscado e só restou a nossa nave. Mas nós não vamos durar muito tempo…

Eu vou morrer… ainda não consegui acreditar, mãe… não é possível! Eu sou muito jovem ainda! Não é justo!! Ainda tenho muito o que fazer, muito o que ver! Lembra a Sally, mãe? E-eu acho que amo ela… e a-acho que ela me ama… mas agora não interessa mais… eu nunca vou saber… Talvez eu fosse casar com ela e ter muitos filhos! Talvez fosse me tornar um almirante…mas agora nada mais faz a mínima diferença, não é? Eu… vou…morrer…

E o pior é que vou morrer longe de você… longe do sol… longe do Petey…

Mãe… eu não quero morrer………………………

<logout>07:22:05 / 24-06-2312

<login>06:45:54 / 24-06-2312

Sub: Arquivo Pessoal

Comandante Enrico Luchesi, Imediato, NMS Eleanor Rigby

Eu não acredito. Eu vou sobreviver a este desastre. Não vou morrer no meio do nada, longe de tudo e todos que amo. Carlos acabou de me mandar um comunicado me colocando como oficial comandante da shuttle. Minha missão é garantir a nossa sobrevivência até a ajuda chegar. Para isso, devemos usar o plano original dele e nos escondermos na atmosfera de Teta Eridani VII. Se eles conseguirem derrotar os kashtranii, voltarão para nos pegar. Caso o contrário, devemos nos esconder mais alguns dias, para garantir que os kashtranii tenham ido embora, e então, tentar entrar em contato com a Terra.

Carlos deseja tanto o nosso sucesso (ou tem tanta certeza de que vai morrer) que designou para me acompanhar, Hiroshi, o Navegador-Chefe; o Segundo Piloto, Piotr; e o Engenheiro-Chefe, Mihnea, que fez um escândalo quando soube, mas não teve outra opção senão aceitar. Sarah, a nossa Médica-Chefe, também deveria nos acompanhar, mas se recusou. Ela disse que o seu lugar era na enfermaria, e indicou o Dr. Ngen para ir conosco. Carlos consentiu (ele e Sarah sempre tiveram uma ligação esquisita, que nunca ficou muito clara para nós que estávamos de fora).

Em resumo, nossas chances de escapar dessa são surpreendentemente boas. Eu estou contente… quer dizer, contente de um modo triste, afinal de contas, eu tenho muitos amigos que vão ficar na Eleanor. Mas, mesmo sabendo disso, não consigo deixar de me sentir… feliz.

Só espero que eles tenham sorte.

<logout>06:47:56 / 24-06-2312

Eleanor Rigby, parte 4

<login>07:01:16 / 24-06-2312

Sub: Correio Pessoal

From: Tenente Fabienne Darsault, Navegadora, NMS Eleanor Rigby

To: Daniel Legrand, Paris, CEE, Terra

Querido Daniel,

Amo você e Charles muito mais do que a minha própria vida. É por isso que estou resignada com o meu destino. Pra dizer a verdade, essa resignação é resultado de uma séria reflexão. Você sabe que sempre acreditei que a vida tivesse um significado especial para cada um, uma razão para aquela pessoa estar viva. Pois bem, depois de analisar minha vida minuciosamente (tive bastante tempo nas últimas horas, o computador travou os sistemas de navegação), cheguei à conclusão de que já cumpri minha parte e, por isso, posso morrer.

Sei que isto é algo meio frio, e até cruel, de se dizer para a pessoa que se ama, mas é a verdade. Por favor não me entenda mal, Dan. Se pudesse escolher, escolheria viver com você e Charles para o resto da minha vida, mas não tenho essa escolha. Em menos de uma hora vamos ter que engajar, sozinhos e avariados, quinze naves kashtranii; nossas chances de sobreviver são mínimas, pra não dizer inexistentes. A proximidade da morte me fez entrar num processo de auto-avaliação; acho que estava querendo fazer as pazes comigo mesma, ter a certeza de que a minha vida valeu a pena. E ela valeu, Dan.

Desde a minha infância, eu sabia o que queria: viajar pelo espaço. Eu sabia que o meu destino estava na marinha solar. Da mesma forma que sabia que aquele flerte inocente entre nós dois era apenas o prelúdio de algo maior. Minha fé não se abalou nem mesmo depois que você se mudou para uma colônia distante da Terra. Nós éramos feitos um para o outro, era só uma questão de tempo. Minha carreira na marinha foi de vento em popa: me graduei com honras e fui designada para o Comando de Fronteira (o melhor comando para uma jovem navegadora querendo aprender e refinar suas habilidades).

Aqueles foram os dois anos mais movimentados da minha vida. Ação infindável, perigo constante e uma incrível camaradagem. Alguns dos meus melhores amigos são daquela época. Mas o que me marcou mesmo foi encontrar você naquele bar em Nova Bucareste. Você se lembra? Estava tocando aquela música antiquíssima, I Can’t Help Falling in Love with You. Ela ilustrava meus sentimentos por você com grande eficiência e o jeito como você me olhava também era bem explicativo. Como eu disse: nós éramos feitos um para o outro. Não havia sentido em negar o destino. Eu tinha certeza de que até mesmo a baixa que eu havia pedido da marinha seria temporária, embora você duvidasse.

Foi uma época incrível, não foi? Morando em Paris, trabalhando naquilo que nos dava prazer: você, escrevendo romances, eu, naquela companhia de cartografia estelar. E o nascimento de Charles? Uau, nenhum momento até hoje superou a minha felicidade naquele dia, exceto, é claro, o dia do nosso reencontro, que está empatado. Foram cinco anos inesquecíveis, hein, Dan? Ah, e o dia do meu re-convocamento para a marinha? Eu me lembro que você ficou super-sério, por isso eu evitei de te contar o que eu havia sentido ao receber o comunicado: uma sensação de conclusão, como se um ciclo houvesse se fechado. Eu sabia que com o humor que você estava naquele dia, não ia querer ouvir sobre as minhas intuições. Bom, você nunca foi mesmo do tipo esotérico, não é, Dan?

Será que ficou claro para você, mon chere? Espero que sim, porque odiaria pensar que ficou magoado comigo. Além disso, gostaria que explicasse tudo para o Charles, quando ele tiver idade para entender. Ah, e não esqueça de aguar a Dana, senão ela vai ressecar e você vai ficar sem as flores…

Dan, desculpe ter que apelar para o clichê, mas você sabe como eu sou: embora meu corpo vá morrer aqui, enquanto você e Charles se lembrarem de mim, eu estarei viva em espírito. Au revoir, chéri.

Amour,

Fabi

<logout>07:06:28 / 24-06-2312

Eleanor Rigby, parte 3

<login>06:13:28 / 24-06-2312

Sub: Arquivo Pessoal

Tenente Comandante Sarah Moon-Riding-High-In-The-Sky, Médica-Chefe, NMS Eleanor Rigby

Catástrofe. É a única maneira de descrever o que está acontecendo. A enfermaria está um caos. Alguém entrando aqui agora certamente diria que nós fomos uma das áreas atingidas pelo ataque kashtranii. Mas isto não aconteceu. O estado atual se deve ao fato de estarmos superlotados: há, pelo menos, o triplo de pacientes que a enfermaria comporta. Todo o meu staff está até o pescoço de trabalho — quer dizer, aquela parte dele que não é paciente também. Todos estão estressados e no limite de suas capacidades. Uma das enfermeiras, Åsa, teve um ataque histérico mais cedo; ela ficou impressionada com todos aqueles feridos que estavam chegando. Dos 650 tripulantes, 83 morreram e 177 estão com vários graus de lesão, sendo que 32 deles estão além de qualquer ajuda.

Agora as coisas acalmaram um pouco. Mas com essa quantidade de feridos, tive de estabelecer um critério de triagem não muito preciso. Dividi os ferimentos em três classes: leves, médios e sérios. Tripulantes feridos levemente, recebiam um curativo rápido e eram mandados de volta aos seus postos. Aqueles com ferimentos médios, eram mantidos na enfermaria e recebiam um tratamento mais completo. Já os sérios, eram encaminhados para a cirurgia, quando esta era possível. Mesmo com este arranjo as coisas escalaram para um nível tal de precariedade, que fui forçada a cancelar as operações e liberar analgésicos para todos. Se não posso curá-los, pelo menos vou aliviar suas dores.

Com este descanso que tive agora, comecei a pensar em uma maneira de salvar pelo menos alguns dos feridos. Soube que uma das shuttles executivas ainda está funcionando, por isso vou sugerir ao capitão que transporte um grupo de feridos e uma tripulação mínima para ela e à lance. A meu ver, eles poderão se esconder na atmosfera do planeta e esperar a ajuda chegar. Assim, alivio parte da angústia: quis ser médica para salvar vidas, e não para vê-las definhar, impotente para ajudar.

Estranhamente, tudo isso me fez lembrar de você, avô. Estranho porque desde a sua morte, sete anos atrás, eu estive envolvida demais em meu trabalho para lembrar de qualquer coisa. Mas agora lembrei daquele dia, há dezoito anos, em que saí de casa para ir para a Academia Naval. Você me disse, naquele seu tom áspero que parecia carregar a sabedoria de milhares de gerações, que não era natural alguém morrer longe de sua casa e de seu povo. Você sempre foi sutil como um búfalo, avô. Sabia que eu ia morrer no espaço, não é? Bom, parece que a minha hora chegou. Só espero que você esteja me esperando, velho Navajo.

<logout>06:16:31 / 24-06-2312

Eleanor Rigby, parte 2

<login>06:37:14 / 24-06-2312

Sub: Arquivo Pessoal

Tenente Comandante Mihnea Florescu, Engenheiro-Chefe, NMS Eleanor Rigby

Se eu sobreviver à esta merda, vou processar metade do staff de engenharia da marinha solar. Já vi instalações retrógradas, mas estas arapucas chamadas classe Regina ganham disparado de qualquer coisa! São tão mal construídas que é difícil se locomover pelas seções de engenharia numa situação normal. Depois de metade da nave ter sido vaporizada ou, simplesmente, danificada, fica impossível.

Como se não bastasse ter que reparar essa monstruosidade em menos de quatro horas, ainda tenho de fazer isso com metade do meu grupo! Deve ser alguma espécie de maldição de engenheiros estar sempre nos lugares mais atingidos em combate. E o pior é que o capitão, aquele imbecil, acha que nós aqui embaixo somos alguma espécie de mágico: três horas atrás ele me mandou uma mensagem dizendo que contava comigo e meus homens para colocar Eleanor de pé novamente. Ora, ele que vá colocar a mãe dele de pé! Ele deve achar que só porque chama a nave de Eleanor, ela vai se portar como uma dama. Hah! Se ele tivesse alguma consciência do duro que nós estamos dando, teria ficado calado lá na ponte tentando nos tirar dessa merda. O que, diga-se de passagem, não deveria ter acontecido em primeiro lugar, já que a função dele é justamente impedir isso. “Grande líder”!

E no meio dessa zona toda, nós tentamos dar um jeito nas coisas. Só falta uma hora para sairmos da sombra do planeta e não completamos nem metade das tarefas necessárias. Os escudos e os canhões protônicos estão operando numa faixa de trinta porcento de eficiência; suficiente para sobrevivermos uma ou duas saraivadas dos kashtranii. O gerador transpacial eu esqueci; demoraria muito para repará-lo até um nível operacional mínimo. A gravidade artificial foi estabilizada e conseguimos ultrapassar algumas das travas que o computador estabeleceu nos sistemas primários; infelizmente, o sistema de navegação não foi um deles. Agora estamos tentando selar a maioria dos brechas na couraça da nave, mas a situação está crítica.

Ahh, tem mais! Acabei de ficar sabendo que a xamã residente desta ratoeira, a Sarah “Sei-Lá-O-Quê”, sugeriu ao Imbecil Comandante evacuar os feridos na shuttle executiva que ainda está operacional. Ele, obviamente, concordou. Claro, nenhum dos dois pombinhos está trabalhando pesado há quase quatro horas num traje espacial, nem vai ter que destravar no muque os sistemas manuais da porta do hangar, que estão emperrados!! Assim não dá!!!

<logout>06:41:31 / 24-06-2312

Eleanor Rigby, parte 1

Na década de 1990, houve um projeto de um livro com contos de ficção científica baseados em canções dos Beatles. Nem sei se submeti meu conto ao concurso, mas o escrevi, escolhendo Eleanor Rigby como minha inspiração (mais tarde o submeti a um concurso promoviso por uma revista de RPG e tirei o primeiro lugar). Assim como a música, cujo tema principal é a solidão, a história narra as últimas horas da tripulação de uma nave espacial que está ponto de ser destruída. Relendo o texto, ele não me parece muito bom, mas também não jogaria ele no lixo (fiz umas pequenas edições para postá-lo aqui). :]


<login>03:45:05 / 24-06-2312

Sub: Relatório Oficial

Capitão Carlos Alfanj Alencar, Oficial Comandante, NMS Eleanor Rigby

Este pode vir a ser o último relatório da minha vida. A situação na qual nos encontramos agora é, no mínimo, desesperadora: somos a única nave restante do nosso comboio, estamos com extensas avarias e temos uma flotilha de pelo menos 15 naves em nosso encalço. Eu reconheci a configuração delas. São kashtranii. Ou seja, só se darão por satisfeitos quando virem os nossos cadáveres.

Embora me constranja dizer isto, estamos vivos mais por causa de sorte, do que de qualquer brilhantismo tático da minha parte. Mas estou pulando a frente dos acontecimentos. É melhor explicar como tudo ocorreu do princípio, afinal, esta será, bem provavelmente, a única versão deste ataque que o governo da Terra vai ter, se é que vai tê-la.

Nosso comboio era constituído por cinco cruzadores de batalha classe Regina: Joana d’Arc, Anita Garibaldi, Mata Hari, Florence Nightingale e a nossa Eleanor Rigby. Com todo este poder de fogo, não estávamos preocupados com nenhum tipo de ataque. Ninguém seria tão tolo a ponto de atacar cinco naves de guerra altamente sofisticadas. Além do mais, o ponto de conexão transpacial que estávamos usando era em um sistema desabitado, Teta Eridani, de nenhum interesse para qualquer uma das potências galácticas. Aqui começa a interferência caprichosa da sorte: Eleanor estava com um pequeno desajuste no gerador transpacial, o que nos deixava defasados 8.13 segundos em relação ao resto do comboio. Em uma situação normal, como esta parecia ser, isto não era preocupante. Por isso, foi com grande espanto que vi os sensores da Eleanor registrarem as explosões de Joana e Florence enquanto emergíamos no espaço normal. Tudo ficou claro no momento seguinte, ao terminarmos a transição e avistarmos a flotilha de 20 naves. Elas deviam estar esperando no ponto de conexão. Quando as nossas naves se materializaram, os kashtranii abriram fogo. Com seus escudos de defesa desativados para a viagem transpacial, as Reginas foram uma presa fácil.

O intervalo entre a primeira e a segunda onda de ataque nos deu tempo de ativar os escudos e os sistemas de defesa. Mas antes que pudéssemos fazer qualquer coisa, os kashtranii abriram fogo de novo. Anita e Mata Hari, já extremamente avariadas, sucumbiram ao segundo ataque. Nós também sofremos grandes avarias. A mais crítica foi o gerador transpacial, sem o qual nossas chances de escapar haviam se reduzido drasticamente. Neste momento, minhas opções eram poucas e nenhuma delas muito boa: podíamos atacar a flotilha, o que resultaria na nossa sumária destruição; podíamos nos render, uma vez mais resultando na nossa destruição, já que kashtranii não fazem prisioneiros; ou podíamos fazer uma “retirada estratégica”, mas para isso precisaríamos de uma “distração”. Foi quando a sorte sorriu para nós uma vez mais. Eu havia reconhecido as classes das naves kashtranii; eram todas antigas, usavam uma tecnologia de sensores ligeiramente datada (para este tipo de missão, não deveria ser um problema), que não primava pela resistência. Foi então que decidi ejetar o reator de fusão secundário e detoná-lo. Uma explosão dessa magnitude a uma distância tão curta causaria algum dano aos kashtranii e, mais importante, fundiria a maior parte da rede de sensores deles, deixando-os virtualmente cegos.

Meu plano funcionou, embora creia que deva descrevê-lo como “pírrico”. Durante o tempo que levamos para implementá-lo, sofremos mais danos, e a própria explosão do reator nos causou avarias. Pelo lado bom, conseguimos destruir dois lanceiros kashtranii e ainda tínhamos nossos sensores.

Com a flotilha inimiga em desordem (na confusão inicial, uma colisão destruiu mais duas naves e avariou seriamente uma terceira), rumamos para o planeta mais próximo, Teta Eridani VII, um gigante gasoso. Meu objetivo era usar o planeta como refúgio. Contudo, um problema no sistema de navegação me impediu de prosseguir com este plano. Ao invés de nos fazer mergulhar na atmosfera, o computador nos colocou em órbita do planeta. Ao final de quatro horas, emergiremos do outro lado novamente, e aí os kashtranii, que já deverão ter recuperado pelo menos alguns dos sensores, irão nos localizar.

Na situação atual, o desenlace deste engajamento é bem claro para mim. Mas não posso deixar nada transparecer. A moral da tripulação ainda está boa e é preciso que se mantenha assim. Confio nos meus oficiais superiores para botar Eleanor de pé novamente. Quem sabe? Talvez consigamos sair desta.

<logout>03:52:32 / 24-06-2312