O sono da razão, conclusão (opcional)

Quando comecei a escrever “O sono da razão”, minha intenção era fazer um conto de terror, mas acabou que esse detalhe só ficou aparente para o leitor no último parágrafo. Revendo o texto, percebi que a história estava redonda sem a inclusão do elemento de terror — apenas como uma narrativa sobre medo. Foi por isso que concluí a série no post de ontem. Contudo, para efeito de completude, posto agora o fim original de “O sono da razão” como uma conclusão opcional apara aqueles que assim o desejarem.


Lucas abriu os olhos. Seu quarto estava escuro exceto pelo rádio-relógio sobre o criado mudo que marcava três horas da manhã em números vermelhos brilhantes. Por um breve momento, ele não entendeu o que o havia feito despertar –- restava apenas a fugidia sensação de que havia sido um ruído. Então, ele percebeu o som e um grande terror se apossou do agora adulto Lucas. Em menos de um segundo, todos os seus medos de criança voltaram para assombrá-lo. Tudo por causa daquela infernal percussão. O timbre, a cadência, o monótono ritmo, tudo sobre o pulsar que vinha naquele momento da sala do seu apartamento era igual ao amaldiçoado barulho que o sonambulismo da sua mãe havia criado 20 anos antes. Mas havia uma diferença.

Sua mãe havia morrido naquela manhã.

O sono da razão, conclusão

O choque da constatação acertou o menino com a força de um banho frio de cachoeira e lavou todas as emoções conflitantes que o dominavam, deixando apenas surpresa e curiosidade. Observando melhor a cena, Lucas percebeu que sua mãe, apesar de parecer desperta, agia como um zumbi. Ele já tinha ouvido falar disso, chamava-se sonambulância ou sonambulismo e fazia com que as pessoas andassem dormindo. Sua mãe não estava caminhando, mas estava absorta no livro sobre a mesa, o qual ela abria aleatoriamente e depois fechava com um baque, gerando assim o ruído que atormentava seu filho há meses.

Apertando os olhos e usando a pouca luz que entrava pela janela, Lucas leu o título do livro, escrito em grandes letras brancas na capa: Direito Constitucional. Sua memória, livre da pressão de relembrar detalhes aterrorizantes de filmes e histórias, trouxe à tona as muitas tardes em que vira sua mãe debruçada sobre aquele livro, estudando avidamente cada detalhe contido em suas páginas. Ela se preparava para um concurso e o menino recordou que a data da prova estava próxima. Na sua mente, as peças do quebra-cabeça foram se juntando e tudo começou a fazer sentido. Atribulada e ansiosa com o teste, sua mãe havia se dedicado de corpo e alma aos estudos, a tal ponto que mesmo quando dormia, ela pensava no assunto e tentava continuar seu esforço para conseguir um emprego público.

Lucas percebeu que seu coração havia parado de bater tão violentamente e os arrepios que sentia agora eram causados por uma corrente de ar que vinha da janela aberta. Calmo, ele tocou no braço da sua mãe e chamou por ela. A mulher piscou, olhou para o livro e depois para o filho. Confusa, ela perguntou para o garoto o que estava acontecendo e ele lhe explicou. Um pouco envergonhada com a situação, a mãe de Lucas o levou até seu quarto, o pôs na cama, lhe deu um beijo e lhe desejou boa noite. O menino fechou os olhos e em poucos segundos estava dormindo. Um pequeno sorriso ainda pairava em seus lábios.

Nunca mais as noites de Lucas foram as mesmas. O medo e o terror que o acompanhavam se tornaram fantasmas do passado. Ao longo dos anos ainda havia noites em que ele não conseguia dormir, mas estas eram fruto de provas, paixões correspondidas e não correspondidas, vésperas de viagens e prazos apertados no trabalho, entre outras razões menos freqüentes. Já adulto, ele relembrava seu suplício infantil com humor em rodas de bar e o caso da mãe sonâmbula se transformou numa anedota pessoal que ele usava para quebrar o gelo em encontros. Certa vez, durante uma visita a um museu, Lucas viu uma reprodução de um quadro de Goya, O sono da razão desperta demônios. Ele ficou maravilhado com a obra. Era como se o pintor espanhol tivesse vislumbrado séculos antes o tormento pelo qual ele tinha passado. A identificação foi tanta, que Lucas adquiriu uma cópia para seu apartamento e de vez em quando a fitava com um misto de satisfação, por ter vencido seus medos de infância, e assombro, por lembrar quão poderosa era sua imaginação.

Ele nunca mais ouviu o som do livro.

O sono da razão, parte 3

No corredor, a sinistra batida chegava com mais clareza aos ouvidos do menino. A distância que o separava da sala era de apenas cinco metros, mas poderiam ser cinco quilômetros dada a dificuldade que Lucas teve para cruzá-la. Com cada trêmulo passo que dava, a mente hiperativa conjurava explicações cada vez mais mirabolantes para a origem da percussão, de tal maneira que quando o garoto finalmente chegou à entrada da sala, ele estava convencido que todo o problema era resultado de uma conspiração sem precedentes da comunidade de monstros, cujo único objetivo era atormentá-lo.

Foi nesse estado que Lucas olhou o breu da sala e para seu profundo terror viu um vulto esbranquiçado. Além de confirmar que o ruído não era uma alucinação, aquele evento adicionava mais uma camada de pavor à situação. Para entender o porquê disso, é preciso voltar dois anos no tempo para uma noite na qual Lucas assistia a um filme de suspense, cuja história girava em torno de um assassinato ocorrido na casa de veraneio de um casal milionário. Não havia qualquer detalhe sobrenatural na narrativa, mas em determinado momento, um dos personagens prestara depoimento na polícia e seu relato se tornara uma cena dentro do filme. Ele dissera que em certa hora da noite, quando estava no quintal da casa, vira um vulto passar ao longe. A dramatização desse trecho mostrara uma figura vagamente humanóide e fora de foco que, em conjunto com o avançado da noite e a já sabida imaginação fértil do menino, causara extrema inquietação nele. Desde essa data, Lucas sempre associava a palavra ‘vulto’ a algo do outro mundo e de natureza, quase sempre, ruim.

A descoberta paralisou o garoto, que ficou vários minutos estático, ouvindo apenas a harmonia cacofônica do pulsar rápido do seu coração com a batida sequencial do livro. Se a aparição havia percebido a chegada do menino, ela não parecia demonstrar. O descaso do ser tirou Lucas de seu estupor e lhe deu um pouco de coragem para fazer algo que contrariava o seu instinto de sobrevivência: falar. Ele tinha certeza de que no momento em que abrisse a boca, a coisa pularia sobre ele e o despedaçaria – ou algo pior. Com a voz rouca e falseante, Lucas emitiu um tímido ‘oi’, seguido por um igualmente débil ‘tem alguém aí?’. Nada aconteceu. Sem saber se aquilo era um bom ou mau sinal, o menino repetiu o chamado, dessa vez com mais força. Nada continuou acontecendo.

A situação, não fosse um pesadelo de proporções épicas para Lucas, seria intrigante. Para ele, ao ignorá-lo, a criatura poderia estar tentando atraí-lo para mais perto e assim facilitar o ataque. Contudo, teria sido muito mais fácil para o monstro permanecer escondido e avançar sobre ele de surpresa. Nada parecia fazer muito sentido naquela cena, mas as incongruências foram o primeiro sinal para Lucas de que as coisas não eram exatamente como ele as imaginava. A constatação moveu os pés do menino sem que ele se desse conta, fazendo-o se aproximar do vulto. À medida que chegava mais perto, o garoto discernia novos detalhes: a entidade estava próxima à mesa, como se estivesse sentada em uma cadeira; seu aspecto esbranquiçado era oriundo de uma roupa muito parecida com uma camisola; a criatura realmente parecia estar de posse de um livro grosso. O último passo pôs Lucas cara a cara com o vulto…

Era sua mãe.

O sono da razão, parte 2

Lucas não passava por esse calvário todas as noites, é verdade. De fato, a calmaria era mais frequente que a tempestade e mesmo nas ocasiões mais conturbadas o cansaço acabava ganhando a longa batalha com o medo pela mente do menino, que então era acolhido por um sono redentor. Mas desde que a assombração do livro havia começado, as forças da irracionalidade tinham ganhado novo alento e a guerra pela consciência do menino se tornava mais longa e acirrada. Com o tempo, o embate noturno começou a invadir os domínios do dia e Lucas percebeu que o pavor que o consumia à noite começava a enraizar-se sob a luz do Sol. Apesar disso, ele conseguia manter as aparências e nem seus amigos nem seus pais notavam qualquer mudança em seu comportamento. Contudo, o menino sabia que em breve não haveria como continuar escondendo o problema.

Essa era uma das preocupações que atormentavam a pobre criança naquela noite. Havia chovido muito durante o dia e uma fina garoa persistia, acompanhada de ventania e frio. O clima forçou Lucas a fechar sua janela, o que contribuiu para inquietar ainda mais sua mente. Mas mesmo com tudo isso, aquela parecia ser uma noite calma. O menino já cambaleava em direção ao mundo dos sonhos e seu coração não estava tão disparado quanto antes. Infelizmente, a sonolência foi quebrada pelo ritmo infernal do livro. Como sempre, o som vinha da sala, atravessava o corredor, entrava no quarto e chegava aos ouvidos amedrontados do garoto. A chance de um sono tranqüilo desapareceu, a taquicardia voltou e o inferno pessoal de Lucas ressurgiu de maneira clamorosa.

Porém, algo inesperado também aconteceu. Dos recônditos da alma daquele menino, surgiu uma luz. Não era uma fonte de iluminação propriamente dita, e sim um impulso que logo coalesceu em um raciocínio claro e simples: aquilo não podia continuar. Lucas percebeu que permanecer escravo daquele medo o levaria à infelicidade, como de fato já começava a fazer. Ele precisava confrontar a criatura, ter certeza de sua existência ou obter o alívio de concluir que não havia qualquer coisa de sobrenatural naquele ruído. A realização desse fato inundou o menino com um senso de propósito e este se traduziu em um ato que invocou toda a coragem que Lucas possuía – levantar o cobertor. O garoto não sabia se o súbito calafrio que sentiu era devido ao frio que avançou rapidamente sobre ele ou se era apenas mais uma manifestação do pavor que o consumia, mas o fato era que ele havia posto de lado sua única camada de proteção contra o desconhecido.

Descer da cama foi outro passo complicado. Lucas achava que deveria simplesmente baixar seus pés até o chão, contudo, sua recém-descoberta coragem ainda não era grande o suficiente para que ele encarasse esse curso de ação seriamente. A única opção seria pular o mais longe possível, frustrando assim os planos dos monstros que viviam embaixo da cama de agarrar suas pernas. Lucas se preparou e, meio atrapalhadamente, jogou seu corpo para longe do colchão, aterrisando de maneira pouco graciosa a 30 centímetros do local onde dormia – uma distância pequena, sem dúvida, mas para ele, uma vitória. Com os já praticados dois passos, chegou próximo à porta, onde seu instinto foi o de ligar a luz. Ele sabia que ao acionar a lâmpada de 60 watts, as sombras que povoavam sua imaginação desapareceriam e era bem provável que até parasse de ouvir o som do livro. Entretanto, esse não era seu objetivo. A missão à qual havia se proposto era de confronto e não de fuga. Assim, com certo pesar, Lucas deteve sua mão antes que esta chegasse ao interruptor e saiu de seu quarto.

O sono da razão, parte 1

O apagar das luzes do quarto era o início de um suplício para Lucas. Ao ser engolfado pela escuridão, o menino de 10 anos cruzava o espaço entre o interruptor e a sua cama em dois grandes passos e um salto, o qual lhe permitia subir no colchão sem que suas pernas estivessem próximas do vão entre a cama e o chão e, assim, vulneráveis a qualquer monstro que porventura habitasse aquele recesso tenebroso. Os dois cobertores, um de algodão e outro de lã, eram seus escudos contra qualquer ataque oriundo do breu que o cercava. A crença de Lucas nos poderes defensivos daqueles tecidos era tanta que muitas vezes ele ficava encharcado de suor, mais confortável em sentir calor do que acreditar-se desprotegido contra os horrores que o espreitavam. Ele os puxava até sua cabeça, deixando apenas os olhos de fora, de maneira que pudesse observar qualquer ação nefasta direcionada a si, mesmo sabendo que se visse algo provavelmente teria um troço.

Mas a principal fonte de terror para o garoto não era visual, e sim auditiva. A combinação da escuridão com a calma do tardar da noite fazia com que uma gama enorme de ruídos, normalmente afogados na tempestade sonora do cotidiano, viesse à tona. Rangidos, crepitares, assobios, silvos, zumbidos, baques e afins assumiam um ar sinistro que alimentava a imaginação já propensa a excessos de Lucas, a despeito do fato que, sob a luz do Sol, o menino era capaz de encontrar explicações simples para a origem de cada um deles. Em sua mente, cada minúsculo barulho sinalizava uma ameaça à sua integridade física e mental, fosse na forma de um monstro horrendo armado de garras e presas ou na de um espírito desencarnado capaz de assustá-lo até a morte.

Entre a imensa variedade de terrores sonoros, um em particular superava os outros em capacidade de induzir o medo em Lucas: a estranha percussão de um livro. A definição em si já era bastante exótica e várias vezes, quando se lembrava disso durante o dia, o garoto se espantava com a sua capacidade de interpretação daquele fenômeno. Parecia que alguém, ou mais provavelmente algo, pegava um livro grande e grosso, de centenas de páginas, o vergava e então o soltava sobre uma superfície rígida, como a de uma mesa.

Durante os curtos e infrequentes momentos de lucidez que emergiam do mar de terror no qual a mente do menino se afogava durante a noite, Lucas percebia que aquela era uma atividade no mínimo estranha para uma criatura sobrenatural realizar. No entanto, a força que empurrava esses pensamentos racionais era logo tragada de volta para as profundezas do oceano de medo e a jovem e imaginativa mente descobria outros motivos para justificar a confusa performance. As duas principais versões para o fato eram a de que a natureza surreal daquele ritual mostrava ser a entidade uma ordem de grandeza mais perigosa do que os horrores “normais” que habitavam o mundo, como vampiros ou fantasmas. A outra era de que o monstro fazia aquilo para torturar ainda mais o já assustado garoto, demonstrando assim ser capaz de grande crueldade e, novamente, representar uma ameaça muito maior que reles demônios e duendes.