De retalhos a planeta

Depois de doze anos, resolvi mudar o nome e a cara do meu blog. Gosto muito do nome “retalhos”, tanto que pretendo usá-lo como título da minha primeira antologia de contos. Isso ia acabar criando confusão, se mantivesse o nome no blog também.

Além disso, tinha o domínio planetfred.net parado. Estava usando apenas para o meu e-mail. Com a mudança, esse URL agora aponta ara cá.

A mudança no visual foi pro blog ficar mais alinhado com o meu site. O conteúdo continua aqui, só a apresentação que mudou mesmo.

E aí? O que você acha?



After twelve years, I decided to change my blog’s name and appearance. I really like the word “retalhos” (patches or rags), so much so I inted to use it as the title of my first short story anthology. If I kept it as the blog’s name, this would probably confuse people.

Besides, my other domain, planetfred.net, was idle. I was using it only for my e-mail. With this change, this URL now points here.

The change in appearance is to make the blog match my site‘s style. The content is still the same, only the presentation changed.

So? What do you think?

Supermercados Guanabara e a aparente surrealidade de se querer que uma regra seja cumprida

Está ficando difícil ser cliente do Supermercados Guanabara. Cada vez que vou lá, um problema novo acontece.

Ontem, fui no Guanabara da Av. das Américas, 3.501, fazer uma compra rápida – cinco itens. Aos sábados, o Guanabara costuma ficar cheio, mas ele possui caixas com um limite máximo de “15 volumes” e fui para aquela que parecia mais livre.

Para a minha surpresa, a mulher na minha frente tinha muito mais do que 15 volumes, mesmo sendo generoso e contando itens iguais como um volume. Ela estava com dois outros homens que já estavam passando as compras pela caixa. Imaginei que era o velho truque de burlar a regra, dizendo que cada um deles estava comprando 15 volumes.

Minha suspeita foi confirmada, quando um dos homens pagou a sua compra e a mulher ia passar as delas. Contudo, ela ainda continuava com bem mais de 15 volumes. Antes que ela começasse a passagem, a seguinte conversa aconteceu:

Eu (para a caixa): Essa caixa não é de 15 volumes?
Caixa: Eu não tenho como contar, senhor!
Eu: Como assim? Você não consegue ver que tem mais de 15 volumes aqui?
Caixa: Eu não tenho raio-X pra contar, senhor!
Eu: Raio-X? Não precisa disso, basta você contar. Olha: um, dois, três, quatro, cinco…
Mulher: Eu conto isso como um volume (apontando pra seis caixas de creme de leite).
Eu: Mas, ainda assim, você tem mais de 15 volumes.
Mulher: Você quer passar na minha frente?
Eu: Com certeza (passou pra frente dela e começo a passar minhas coisas, a caixa e a mulher continuam falando passivo-agressivamente).
Caixa: Agora a culpa é minha.
Eu: Parcialmente, é, sim. Por que você não falou pra ela que a caixa era de 15 volumes?
Caixa: Não tinha mais ninguém na fila!
Eu: E depois que eu cheguei? Se você acha que o cliente vai brigar com você, por que você não chama o supervisor?
Mulher: Eu não vou perder meu humor por essas coisas.
Homem 1 (mais jovem): O senhor já conseguiu o que queria. Por que ainda está discutindo?
Homem 2 (mais velho): Que coisa chata! Aposto que é eleitor “cidadão de bem”.
Homem 1: O senhor está certo, ela tinha mais produtos do que o permitido, mas ela cedeu a vez pro senhor.
Eu (pro homem 1): Eu não estou falando com você, estou falando com ela (faço sinal pra caixa), porque ela está dizendo que não tem nada que ela possa fazer.

Os quatro continuam me atacando passivo-agressivamente, enquanto pago.

Eu: Não estou entendendo, porque vocês estão me atacando. Só quero que a regra seja cumprida.

Termino a compra e, antes de sair, falo com o supervisor.

Eu: Oi, então, fiz uma compra na caixa 7 agora, onde fui atacado por outros clientes – e a caixa – só porque pedi que a regra dos 15 volumes fosse seguida. Vocês têm que dar um jeito nisso.
Supervisor: É que é complicado, senhor. Tem cliente que fala que não vai sair, briga.
Eu: E aí? Então eu que vou ter que me indispor toda vez que vir aqui?
Supervisor: É complicado…
Eu: Ué, tira a placa de 15 volumes, então. Se vocês não vão fazer nada para que a regra seja cumprida. Ou faz uma capacitação das caixas pra ensinar a elas o que fazer.
Supervisor: … (balança a cabeça, mas não anota nada, significando que vai ignorar o que falei)

O mais “engraçado” disso tudo é que quando eles decidem que eu não posso mais parar minha bicicleta em um determinado local, nunca é complicado mandar um segurança gigantesco vir me dizer que tenho que mudar.

Morte nas escadas do Metro

Uma mulher morreu no metrô de Nova York, porque estava carregando o carrinho de bebê nas escadas e caiu. Essa é uma cena comum nas estações do Metrô Rio (e da Supervia também), que não são exatamente campeãs de acessibilidade. Só algumas estações possuem elevadores de acesso e eles muitas vezes estão parados.

Isso é, obviamente, um problema grave para quem tem mobilidade reduzida — cadeirantes, idosos etc. –, mas afeta também os ciclistas. Pelas regras do Metro Rio, eles não podem usar os elevadores, que são de uso “exclusivo” e não preferencial, além de, pelas regras da companhia, também não poderem levar as bicicletas nas escadas rolantes. Fora a truculência dos agentes de segurança do Metro Rio.

Seguidas à risca, essas normas significam que ciclistas têm que se aventurar carregando suas bikes nas escadas — a mesma situação que levou à morte da mãe americana.

A foto abaixo, tirada na estação Saens Pena da linha 1, é um exemplo dessa situação.

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Contra o fascismo, #HaddadSim, #Haddad13

Não sou petista, não votei no Haddad no primeiro turno e concordo com algumas das críticas ao PT, como o fato de não terem apoiado uma candidatura única da esquerda para esta eleição.

Mas, NESTE MOMENTO, isso é irrelevante. Vou dar um exemplo.

Imagine que estamos viajando de barco e, por causa de uma briga, caímos no mar. Agora tem um tubarão vindo na nossa direção.

Podemos discutir as decisões e circunstâncias que nos levaram a estar nessa situação? Sim.

Isso vai impedir o tubarão de chegar e nos devorar? Não.

Então, NESTE MOMENTO, faz mais sentido tentar subir no barco de novo, porque se ficarmos discutindo, na melhor das hipóteses, voltamos pro barco sem uma perna. Na pior…

Não pense que não tem como acontecer, porque já ocorreu duas vezes na nossa história: em 1930 e em 1964. Na primeira, demorou 15 anos para voltar pro barco, na segunda, 21.

Só pra deixar explícito:

  • nós somos nós, brasileiros
  • o barco é a democracia
  • o mar é a instabilidade política
  • o tubarão é o Bozo e tudo que ele representa

Mas não precisa acreditar em mim. Seguem algumas fontes para que você chegue à mesma conclusão.

Palestra de Steven Levitsky, um dos autores de Como as democracias morrem, na Fundação FHC, com presença do próprio Fernando Henrique Cardoso (o que faz sua declaração de neutralidade no segundo turno mais estapafúrdia ainda e uma vergonha para a biografia dele).

Em 38 minutos, Levitsky explica que hoje em dia as democracias não são destruídas por golpes militares, mas, sim, pela eleição de candidatos autoritários que usam os próprios mecanismos democráticos para miná-las. Lembra alguém?

Se você não tem tempo de assistir ao vídeo, pode ler a coluna que Levitsky escreveu para a Folha de SP falando especificamente sobre o cenário eleitoral atual (essa informação consta na palestra).

“A democracia do Brasil está vulnerável —vive seu momento mais vulnerável em uma geração. Os brasileiros precisam agir para defendê-la.”

Se você quer entender porque há uma forte associação do candidato do PSL ao fascismo, leia esse texto do cientista político e pesquisador da FGV Oliver Stuenkel no El País, no qual descreve como se deu a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha de 1932. Veja se percebe as similaridades.

“Hitler não chegou ao poder porque todos os alemães eram nazistas ou anti-semitas, mas porque muitas pessoas razoáveis fizeram vista grossa. O mal se estabeleceu na vida cotidiana porque as pessoas eram incapazes ou sem vontade de reconhecê-lo ou denunciá-lo, disseminando-se entre os alemães porque o povo estava disposto a minimizá-lo. Antes de muitos perceberem o que a maquinaria fascista do partido governista estava fazendo, ele já não podia mais ser contido. Era tarde demais.”

Se quer saber como debater com eleitores indecisos ou que demonstram tendência a votar no candidato do PSL (não acredito que os convictos estão abertos a mudar de ideia), veja esse vídeo da socióloga Esther Solano, da Unifesp e baixe o ebook gratuito do livro que ela organizou: O ódio como política: a reinvenção das direitas no Brasil.

Se você quer entender a dinâmica de como chegamos a este ponto, leia essa excelente entrevista no El País do filósofo da USP Vladimir Safatle.

O Brasil é a prova mais cabal de que quando você não acerta suas contas com a história, a história te assombra”

À medida que for encontrando mais textos ou vídeos apropriados, atualizarei este post.

É isso. Em 28 de outubro, vote consciente. Não deixe que o fascismo tome conta do país.

Vaga com “CPF”

Há alguns dias, um amigo compartilhou um post de outra pessoa que reclamava de um concurso público na Universidade Federal do Amazonas (Ufam). A vaga a qual ele queria concorrer tinha requisitos, digamos, muito específicos, indicando que talvez a vaga já tivesse um “CPF”, ou seja, fosse direcionada a alguém.
Me recordei do concurso deste ano (edital 860, de 26 de dezembro de 2017) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no qual havia uma vaga para professor adjunto em Divulgação Científica em Museus no Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF). Era perfeita pra mim: trabalho com divulgação científica desde 2002 e, há quatro anos, sou servidor da Fundação CECIERJ, lotado no Museu Ciência e Vida, em Duque de Caxias (RJ).
Minha empolgação durou dois segundos — o tempo que levei para ler a titulação requerida para o cargo. Enquanto as outras vagas do concurso pedem graduação e/ou doutorado, esta listava os seguintes requisitos: Licenciatura Plena em Ciências Biológicas; Especialização em Divulgação Científica; Mestrado em Ciências Biológicas; Doutorado em Ciências Biológicas.
Assim como o autor do post compartilhado pelo meu amigo, suspeitei de algo. Chequei com fontes no instituto e confirmei a suspeita: a vaga tinha nome. Desisti de tentar o concurso. A ideia de ter que concorrer com uma banca que talvez não fosse isenta e, se passasse em primeiro, ter que iniciar uma batalha jurídica não me encheu de confiança.

 

Pode ter sido a decisão errada. Talvez devesse ter tentado combater essa velha prática da academia brasileira que parece nunca morrer. Mas deixei passar. Contudo, ao ver o post do meu amigo, pensei que só falando disso abertamente podemos tentar mudar essas estruturas arcaicas.
Lista de vagas do concurso

Uma experiência agridoce #somoscecierj #ocupacairu

#ocupacairu
Foto: Luiz Bento

Ontem, como parte das atividades de greve da Fundação CECIERJ, visitamos uma das 21 escolas ocupadas pelos estudantes no Rio de Janeiro. Fomos ao Colégio Estadual Visconde de Cairu, no Méier, e levamos mantimentos para ajudá-los na sua luta. Os alunos nos receberam com simpatia e nos deram um tour das instalações, explicando como estão conduzindo a ocupação. Foi uma experiência agridoce, meio alegre, meio triste. Alegre porque é inspirador ver os jovens tomando pra si a luta por um mundo melhor; no caso, um mundo com uma educação de qualidade e onde o Estado se responsabilize por atender de maneira competente um direito fundamental da população, apesar de uns e outros acharem que não. Os estudantes da Visconde de Cairu não estão apenas lutado, estão administrando sua luta. Se dividiram em vários comitês que lidam com diferentes questões da ocupação, seja alimentação, limpeza ou atividades. Eles ainda espalharam cartazes pela escola com mensagens de tolerância e reafirmação da diversidade, algo, no mínimo, louvável em tempos de extremismo e fascismo em alta. Pra mim, é especialmente marcante ver essa iniciativa, porque não sei se eu, quando adolescente, teria feito o mesmo. Na minha juventude, era de direita (eu sei, mas mudei — fiz o caminho inverso da maioria das pessoas) e provavelmente não estaria apoiando um movimento com esse.

Foi triste porque, durante o tour, vimos como a Visconde de Cairu é imensa e possui diversas instalações que fazem (ou fariam) dela uma escola fantástica, como laboratórios de química e astronomia (!), mas que estão abandonados e/ou trancados. As instalações da escola também sofrem sem manutenção, como mostra esse vídeo de 2010. O colégio tem até um bosque, uma área grande de vegetação que poderia ser usada para aulas práticas de biologia ou para projetos como uma horta comunitária, mas que, agora, acumula focos de mosquito. É mais triste ainda porque a gente sabe que essa situação precária não é “privilégio” da Visconde de Cairu — tá mais para a realidade padrão dos colégios cariocas e fluminenses.

De qualquer maneira, prefiro contabilizar a experiência mais como positiva do que negativa: a atuação dos jovens bate de dez a zero o desmazelo do abandono da instalações de educação do estado. Toda a força pros estudantes da Visconde de Cairu e de todas os outras 20 escolas ocupadas! Continuem lutando! A gente ajuda no que for possível.

Em tempo, no dia 7 de abril, uma juíza aprovou a reintegração de posse do Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes, alegando que os alunos “estão dormindo e cozinhando na própria escola, sem qualquer supervisão por agente público que garanta a segurança. Assim, em caso de acidentes ocorridos dentro da escola, a responsabilidade será do Poder Público que, além de estar privado da posse de um bem público, ainda terá que arcar com eventual indenização por danos causados aos ocupantes”. Acho curioso que quando os estudantes estão frequentando uma instalação sem condições físicas de segurança e saúde apropriadas, tá tudo bem, mas agora que eles estão fazendo um movimento legítimo, aí é problemático para o Estado — perceba que a preocupação dela é com a responsabilização pelo acidente e o custo das indenizações, não é realmente com a segurança. Além disso, como o Poder Público pode estar privado de um bem se ele está na mão dos estudantes, que são o público ao qual ele está destinado?

Mais fotos da visita:

Escola laica
Foto: Luiz Bento

Recalque de ditadura bate na minha geração e volta
Foto: Luiz Bento

Respeite

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Laboratório abandonado
Laboratório abandonado

Laboratório abandonado
Laboratório abandonado

O bosque
O bosque

Vai ter

Patchworld reborn

With the demise of Geocities, I have to find another site to host my RPG goodies, collectively known as Patchworld. While that doesn’t happen, I decided to host the material here at WordPress. I’ll be gradually uploading all the content in a simplified format.

Fim da maratona de outubro

Ufa! A maratona de outubro acabou. Foram 31 textos — um para cada dia do mês. Embora, na verdade, não tenha produzido textos novos, acabei redescobrindo obras inacabadas e ganhando gás para continuar escrevendo. Além disso, como consequência de postar essas histórias, surgiu um novo projeto que pode ser bem legal. Bom, agora continuarei postando, mas provavelmente não nesse ritmo frenético. :] Fiquem ligados!

Missa do galo, redux

Um dos exercícios da oficina literária da qual participei em 1995 era reescrever o conto “Missa do galo“, de Machado de Assis, do ponto de vista de outro personagem. Escolhi o vizinho que havia combinado com Nogueira de ir ao teatro com ele. Que Machado me desculpe pela afronta literária. :]

 


 

Quando estou a divagar, viajando pelas minhas recordações, encontro-me sempre a retornar a uma data específica: a missa do galo de 1862. A missa em si não é o motivo principal da recordação, apesar de tais eventos serem, na época, motivo para fortes lembranças. A pompa, a riqueza, a ostentação da corte eram embriagantes, e qualquer motivo que permitisse sorvê-las era apreciado. Era costume meu nunca perder uma celebração daquele tipo, mas não gostava de fazê-lo sem companhia. Quis o destino que naquele bendito ano estivesse eu passando por uma fase solitária da minha vida. Sim, bendito, pois verão, após o meu relato, que fui uma peça fundamental para evitar a desgraça de duas vidas.

Havia eu combinado com o jovem Nogueira, um quase-parente do meu vizinho, o escrivão Menezes, de irmos juntos à missa. O combinado era que ele viria a minha casa por volta da meia-noite para me acordar e, então, iríamos à igreja. Fui deitar-me tranquilo, seguro de que à meia-noite o jovem estaria a minha porta.

Acordei subitamente ao ouvir as batidas soturnas do carrilhão de papai, único legado deixado por ele a mim. Era meia-noite e nem sinal do Nogueira. Fiquei preocupado. Poderia algo ter lhe acontecido no curto percurso entre a casa do Menezes e a minha? Não, estava exagerando. Provavelmente havia se entretido com algum livro e perdido a hora. Resolvi então ir chamá-lo. Me vesti tão rápido quanto pude, pois o tempo urgia, e segui para a casa do Menezes.

Ao chegar, vi as janelas fechadas, como era de se esperar dado o adiantado da hora e decidi bater. Porém, antes que fizesse algum som, ouvi vozes que vinham de dentro da casa. Eram duas, uma feminina e uma masculina. A mulher era, sem dúvida, D. Conceição, a mulher de Menezes; nós costumávamos chamá-la de “santa”, tal sua passividade e calma. Mas o que estaria ela fazendo acordada a tal hora? O homem, reconheci logo, era Nogueira. Os dois pareciam estar conversando. Não sei descrever o que me acometeu naquela hora, mas senti uma necessidade incontrolável de ficar ali escutando.

Nunca tive atitude mais sensata. À primeira vista a conversa parecia ser inocente, mas para um homem calejado pela vida como eu, era fácil notar as insinuações entrelaçadas nela. Nogueira, coitado, não devia ter idéia do que estava se passando ali, afinal, tinha apenas dezessete anos. Para mim, no entanto, era claro que ali estava a se formar o embrião de um adultério. Engendrado por Conceição. “Santa”, pois sim! Só se fosse do pau-oco! Não que eu seja um hipócrita, entenda-me, sei que há a necessidade do homem procurar conforto no seio de várias mulheres, e Nogueira tinha o direito de ter esta oportunidade. O problema era que Menezes não era um homem de temperamento fácil, e eu temia que, se descobrisse o caso, cometesse uma desgraça. Nogueira era muito jovem ainda para ter este tipo de problema.

Percebi, neste momento, que haviam parado de conversar. Um silêncio opressor tinha se instaurado. A calmaria antes da tempestade! Sabia que aquele era o momento de intervir. Se hesitasse, tudo estaria perdido! Bati fortemente na janela e bradei “Missa do galo! Missa do galo!” Repeti uma vez mais, sossegando apenas quando vi o jovem sair pela porta.

Durante a missa, foi fácil notar que Nogueira não estava presente, pelo menos em espírito. Mais uma prova de que, se não tivesse intervindo, o feitiço haveria se completado.

Hoje, anos depois, recordo deste fato como sendo uma das boas ações da minha vida. Uma que, se o Todo-Poderoso desejar, me valerá um lugar, ainda que pequeno, em Seu reino. Sim, porque Nogueira seguiu sua vida e veio a se tornar um advogado famoso e Conceição acabou se casando de novo, após a morte de Menezes. Talvez isto não acontecesse, não tivesse eu interferido.

O sono da razão, conclusão (opcional)

Quando comecei a escrever “O sono da razão”, minha intenção era fazer um conto de terror, mas acabou que esse detalhe só ficou aparente para o leitor no último parágrafo. Revendo o texto, percebi que a história estava redonda sem a inclusão do elemento de terror — apenas como uma narrativa sobre medo. Foi por isso que concluí a série no post de ontem. Contudo, para efeito de completude, posto agora o fim original de “O sono da razão” como uma conclusão opcional apara aqueles que assim o desejarem.


Lucas abriu os olhos. Seu quarto estava escuro exceto pelo rádio-relógio sobre o criado mudo que marcava três horas da manhã em números vermelhos brilhantes. Por um breve momento, ele não entendeu o que o havia feito despertar –- restava apenas a fugidia sensação de que havia sido um ruído. Então, ele percebeu o som e um grande terror se apossou do agora adulto Lucas. Em menos de um segundo, todos os seus medos de criança voltaram para assombrá-lo. Tudo por causa daquela infernal percussão. O timbre, a cadência, o monótono ritmo, tudo sobre o pulsar que vinha naquele momento da sala do seu apartamento era igual ao amaldiçoado barulho que o sonambulismo da sua mãe havia criado 20 anos antes. Mas havia uma diferença.

Sua mãe havia morrido naquela manhã.