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Uma experiência agridoce #somoscecierj #ocupacairu

13/04/2016
#ocupacairu

Foto: Luiz Bento

Ontem, como parte das atividades de greve da Fundação CECIERJ, visitamos uma das 21 escolas ocupadas pelos estudantes no Rio de Janeiro. Fomos ao Colégio Estadual Visconde de Cairu, no Méier, e levamos mantimentos para ajudá-los na sua luta. Os alunos nos receberam com simpatia e nos deram um tour das instalações, explicando como estão conduzindo a ocupação. Foi uma experiência agridoce, meio alegre, meio triste. Alegre porque é inspirador ver os jovens tomando pra si a luta por um mundo melhor; no caso, um mundo com uma educação de qualidade e onde o Estado se responsabilize por atender de maneira competente um direito fundamental da população, apesar de uns e outros acharem que não. Os estudantes da Visconde de Cairu não estão apenas lutado, estão administrando sua luta. Se dividiram em vários comitês que lidam com diferentes questões da ocupação, seja alimentação, limpeza ou atividades. Eles ainda espalharam cartazes pela escola com mensagens de tolerância e reafirmação da diversidade, algo, no mínimo, louvável em tempos de extremismo e fascismo em alta. Pra mim, é especialmente marcante ver essa iniciativa, porque não sei se eu, quando adolescente, teria feito o mesmo. Na minha juventude, era de direita (eu sei, mas mudei — fiz o caminho inverso da maioria das pessoas) e provavelmente não estaria apoiando um movimento com esse.

Foi triste porque, durante o tour, vimos como a Visconde de Cairu é imensa e possui diversas instalações que fazem (ou fariam) dela uma escola fantástica, como laboratórios de química e astronomia (!), mas que estão abandonados e/ou trancados. As instalações da escola também sofrem sem manutenção, como mostra esse vídeo de 2010. O colégio tem até um bosque, uma área grande de vegetação que poderia ser usada para aulas práticas de biologia ou para projetos como uma horta comunitária, mas que, agora, acumula focos de mosquito. É mais triste ainda porque a gente sabe que essa situação precária não é “privilégio” da Visconde de Cairu — tá mais para a realidade padrão dos colégios cariocas e fluminenses.

De qualquer maneira, prefiro contabilizar a experiência mais como positiva do que negativa: a atuação dos jovens bate de dez a zero o desmazelo do abandono da instalações de educação do estado. Toda a força pros estudantes da Visconde de Cairu e de todas os outras 20 escolas ocupadas! Continuem lutando! A gente ajuda no que for possível.

Em tempo, no dia 7 de abril, uma juíza aprovou a reintegração de posse do Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes, alegando que os alunos “estão dormindo e cozinhando na própria escola, sem qualquer supervisão por agente público que garanta a segurança. Assim, em caso de acidentes ocorridos dentro da escola, a responsabilidade será do Poder Público que, além de estar privado da posse de um bem público, ainda terá que arcar com eventual indenização por danos causados aos ocupantes”. Acho curioso que quando os estudantes estão frequentando uma instalação sem condições físicas de segurança e saúde apropriadas, tá tudo bem, mas agora que eles estão fazendo um movimento legítimo, aí é problemático para o Estado — perceba que a preocupação dela é com a responsabilização pelo acidente e o custo das indenizações, não é realmente com a segurança. Além disso, como o Poder Público pode estar privado de um bem se ele está na mão dos estudantes, que são o público ao qual ele está destinado?

Mais fotos da visita:

Escola laica

Foto: Luiz Bento

Recalque de ditadura bate na minha geração e volta

Foto: Luiz Bento

Respeite

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Laboratório abandonado

Laboratório abandonado

Laboratório abandonado

Laboratório abandonado

O bosque

O bosque

Vai ter

Superseeds #63: Legacies of Power, part 1

07/04/2016

Legacies of Power, part 1 é o sexagésimo-terceiro artigo da minha coluna na RPG.netSuperseeds. Neste, falo sobre uma campanha onde os superpoderes são legados, passados para os sucessores dos heróis e vilões.

Legacies of Power, part 1 is the sixtieth-third installment of my RPG.net column, Superseeds. In this one, I talk about a campaign in which superpowers are passed on to the successors of heroes and villains.

Pedal patagônico: Trecho 2.3 – San Sebastian –> Rio Grande

10/02/2016
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A caminho de Rio Grande

Acordamos às 5 h para escaparmos do vento. Os chineses já estavam levantados, porque haviam se deitado logo depois que chegamos, na noite anterior. Apesar de madrugarmos, os suíços, que se levantaram um pouco depois, estavam prontos antes de nós e saíram em direção a Porvenir. Estavam bem dispostos, apesar de ter pela frente estrada de terra com vento contra e chuva (começou a chover) na cara. Por sorte, quando finalmente terminamos de nos aprontar, a chuva já havia parado e seguimos serelepes em direção a Rio Grande.

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O mar em San Sebastian

No início, vislumbramos o mar ao longo da rodovia (mais tarde, descobriríamos que a baía de San Sebastian tem uma maré com variação de 9 m de altura), mas logo ele retrocedeu e voltamos a ter pampa dos dois lados. Ao longo do dia, o vento subiu e mudou de lado, nos pegando de lado a uma velocidade absurda. Lá pelo meio dia, o Hélio decidiu entrar numa usina de compressão de gás, a La Marina, para pedir abrigo do vento e um local onde pudéssemos comer nossos sanduíches. Fomos recebidos pelo amável Fabian, que não só nos permitiu entrar, como também deixou que usássemos o banheiro e o refeitório. Ele e seus dois colegas nos fizeram companhia enquanto comíamos. Conversamos sobre cicloturismo, a  rota por vir, a situação da Argentina e o Brasil. Descansados, partimos de volta para a ruta 3.

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Fabian e seus colegas, que nos ajudaram na estrada

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E a usina de compressão de gás La Marina, onde trabalham

O vento não havia arrefecido nesse meio tempo. Pelo contrário, parecia ter ganho mais força — algumas pessoas disseram que atingiu 120 km/h, com rajadas de 140 km/h. Pedalávamos junto ao acostamento, mas as rajadas nos jogavam na pista contrária e, quase sempre, quando havia um carro vindo em sentido contrário. Em um determinado momento, quase fomos atropelados. Durante essa peleja, cruzamos com dois outros cicloturistas que faziam o caminho contrário: um jovem alemão e um holandês da nossa idade. Haviam saído juntos de Rio Grande, mas o ciclista teutônico se distanciara do seu companheiro dos Países Baixos. Conversamos mais com esse último — até onde o vento incessante deixava — e ele nos deu algumas informações sobre o caminho por vir. Ambos sugeriram que ficássemos na hospedaria El Argentino, em Rio Grande.

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O retorno do mar

Chegamos num ponto em que a Sandra não conseguia mais avançar e ela optou por pedir uma carona. Após algumas tentativas, um jovem numa caminhonete parou. Ele disse que não poderia levá-la até Rio Grande, a cerca de 20 km, porque o carro era da empresa petrolífera para a qual trabalhava e era de proibido de sair de um determinado circuito, sendo rastreado por GPS. Mas ele poderia deixá-la numa parada de caminhão a 3 km dali, onde eu, que seguiria de bicicleta, poderia encontrá-la. Colocamos a bike na caçamba e, quando a Sandra foi entrar na caminhonete, o vento aprontou mais uma: uma rajada fechou a porta no tornozelo dela. Apesar da dor, não parecia haver um estrago maior e eles seguiram, enquanto eu voltei a me degladiar com o vento.

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Curva perigosa

Os 3 km vieram e se foram, e nada de parada de caminhões. Passei os 4, 5, 6 e 7 km, e continuei sem ver o local. Nessa altura, encontrei o Hélio, que havia se distanciado de nós e parou para nos esperar. Expliquei a situação e ele disse que havia visto uma caminhonete passar com uma bicicleta na caçamba, além de uma mochila colorida muito similar a da Sandra. Conclui que o rapaz devia ter dito 13 km e eu não havia entendido corretamente. Continuamos pedalando até a nova marca e chegamos num posto da gendarmeria, onde achamos a Sandra tomando chá. O tornozelo estava inchado e dolorido, o que impedia que ela continuasse. Por sorte, o engenheiro que trabalhava com os gendarmes se comprometeu a levá-la até Rio Grande quando terminasse seu turno, às 17 h (se ele não pudesse por algum motivo, os gendarmes a levariam). Enquanto descansávamos lá, um motociclista brasileiro chegou. Ele estava bem assustado com a força do vento e havia decidido ficar na gendarmeria até as 21 h, quando a ventania deveria diminuir.

Tendo nos assegurado de que a Sandra estava em boas mãos, eu e Hélio decidimos seguir nas bicicletas. Os funcionários do posto nos disseram que Rio Grande ficava a 16 km, mas pelas minhas contas, eram uns 23 km. O vento continuava enlouquecido e os quatro primeiros quilômetros após a gendarmeria foram problemáticos, mas, depois, as mudanças de direção da rodovia aliviaram um pouco o problema, inclusive nos dando vento de cauda em alguns trechos. Pedalamos pelo pampa durante um tempo, mas uma curva em ladeira nos trouxe de novo a visão do mar. Essa curva, por sinal, parece ser bem perigosa no sentido contrário, dado o grande número de altares para vítimas de acidente.

A praia de Rio Grande

A praia de Rio Grande

Os funcionários da gendarmeria estavam certos — o limite da cidade de Rio Grande ficava a 16 km –, mas eu também: tivemos que pedalar mais uns 7 km para chegar na Hospedaria El Argentino, no centro. Sebastian, o dono, só tinha um quarto de casal livre, mas disse que poderia por um colchão no chão para que nós três pudéssemos dormir juntos. Se não quiséssemos, poderíamos armar as barracas no quintal da hospedaria. Pegamos o quarto e ele ficou de checar na manhã seguinte se haveria outro livre. Enquanto o H;elio foi descansar, fiquei esperando a Sandra, que chegou, trazida elo engenheiro, pouco depois das 17:30, sã e salva.

Pedal patagônico: Trecho 2.2 – Porvenir –> San Sebastian

28/01/2016
39 km no meio do nada
Atravessando o estreito de Magalhães

Atravessando o estreito de Magalhães

A travessia do estreito de Magalhães foi tranquila, feita, em meio ao vento e ao sol, a bordo da barca Pathagon. Infelizmente, não rolou nenhuma aparição de golfinhos ou baleias. O desembarque foi realizado na baía Chilota, na Terra do Fogo, a 5 km de Porvenir. Essa distância foi rapidamente percorrida e logo chegamos à cidade, uma “megalópole” de 5 mil habitantes, a grande maioria dos quais não parece muito entusiasmada em aparecer na rua.

Baía Chilota e, ao fundo, Porvenir

Baía Chilota e, ao fundo, Porvenir

Seguimos direto para nossa hospedagem, o albergue Los Canelos, e, logo na porta, conhecemos duas turistas alemães que iriam ficar no mesmo lugar: Doris e Regina. De fora, o albergue assusta um pouco — uma casa amarela um pouco dilapidada que poderia funcionar facilmente como locação de filme de terror. Mas, ao entrar, essa sensação muda completamente. Não só o interior da casa é confortável, aconchegante e bem arrumado, sua dona, Margarita, é uma pessoa muito amável que faz você se sentir como se estivesse em sua própria casa. Tanto nós como as alemães tiveram essa impressão.

Albergue Los Canelos

Albergue Los Canelos

Almoçamos com Doris e Regina no restaurante Croacia e, depois, tomamos um café no albergue Yendegaia. Mais tarde, Sandra, Hélio e eu fomos dar uma volta por Porvenir nas bicicletas. A cidade não tem muitos atrativos, mas há um mirante num morro e decidimos visitá-lo ao cair da noite. O passeio serviu também para testarmos nossas habilidades de manobra em pista de ripio. A subida e a descida foram tensas, porque tínhamos que ficar bem atentos para que a bike não derrapasse e fôssemos ao chão. A ideia de repetir a experiência ao longo de uma estrada de 97 km não apeteceu nosso coração de cicloturista de primeira viagem e começamos a pensar em como conseguirmos um transporte para esse trecho.

Mapa de Porvenir no albergue Yendegaia

Mapa de Porvenir no albergue Yendegaia

No dia seguinte, nos aventuramos pela estrada que leva ao norte da cidade para conhecer a laguna Los Cisnes, onde, supostamente, haveria flamingos. Depois de 12 km, encontramos a laguna, mas ela estava um pouco mais distante do que imaginávamos:

A caminho da laguna Los Cisnes

A caminho da laguna Los Cisnes

Laguna Los Cisnes... Muito longe.

Laguna Los Cisnes… Muito longe.

Ao voltar a Porvenir, descobrimos que a laguna já não era mais tão badalada, porque as pessoas deixavam seus animais pastarem na área e acabaram espantando as aves. Almoçamos no hotel Barlovento, que fica no caminho para a laguna, e, de tarde, conseguimos contrar um transporte que nos levaria, no dia seguinte, para visitar a pinguinera que fica próxima a Onaisin. Essa é uma colônia de pinguins-rei que provavelmente não visitaríamos, porque fica 10 km ao sul do cruzamento pelo qual passaríamos  a caminho de San Sebastian. O combinado foi que após a visita à piguinera, Juan, nosso motorista, nos deixaria nesse cruzamento para seguir viagem.

Último jantar em Porvenir, com Doris e Regina

Último jantar em Porvenir, com Doris e Regina

Jantamos com Doris e Regina e elas nos contaram sobre seus planos de construir uma comunidade em sua cidade natal, Munique. Como a cidade é muito cara, elas e mais 18 amigos estão tentando comprar da prefeitura um terreno (a preço justo, sem especulação; um programa do governo municipal) para construir um prédio ou algo similar onde todos possam morar. Como é necessário haver uma contrapartida para a sociedade, o lugar incluirira espaços para atividades para a comunidade, como cursos, palestras etc. O local também teria um apartamento para que, no futuro, quando seus fundadores forem idosos, um cuidador possa morar lá e cuidar deles.

Na manhã seguinte, partimos com Juan pelo famigerado caminho de ripio. A paisagem da rota, que passa ao largo da baía Inútil, é muito bonita.

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A caminhonete de Juan com as bicicletas

A caminhonete de Juan com as bicicletas

Mas as subidas e descidas íngremes mostraram que foi acertada a decisão de não nos aventurarmos pelo caminho. Como em outros trechos da viagem, o caminho conta com uma diversidade “nadas”, em termos de estruturas e suporte.

 

Pinguins-rei

Pinguins-rei

A pinguinera é interessante, mas nada fantástico. Está localizada em propriedade particular e, antigamente, podia-se visitá-la de graça. Mas então o dono se deu conta de que podia ganhar dinheiro com isso e, hoje, se paga 12.000 pesos chilenos por pessoa. Os pinguins-rei ficam concentrados em dois lugares: junto ao rio e na praia. Nesse dia, estavam muito juntos por conta do vento forte e frio.

Crescendo no caminho

Crescendo no caminho

Como havíamos chegado por volta das 10 h, tivemos que esperar a bilheteria abrir (às 11 h). Nesse meio tempo, uma van parou e também ficou esperando. Curiosa com os dizeres pintados na lataria — um URL que lia http://www.creciendoenelcamino.com — a Sandra foi falar com o motorista e descobriu que era um casal argentino que estava viajando com o filho de uns dois anos do Ushuaia até o Alasca. Eles sempre quiseram afzer essa viagem e, quando o filho nasceu, viram que era agora ou nunca.

Um abrigo no meio do nada

Um abrigo no meio do nada

Conforme combinado, Juan nos deixou no cruzamento que leva de volta a Poervenir para oeste, a Cerro Sombrero para o norte, Onaisin para o sul, e San Sebastian para leste. O vento era forte e incansável, mas, por sorte, há uma casinha — outro ponto de ônibus — ali, no meio do nada, que proporciona algum abrigo. Entramos com as bicicletas para comer nossos sanduíches e arrumar tudo. Nas paredes internas, encontramos mensagens de outros ciclistas e viajantes que também pararam ou pernoitaram ali.

Infelizmente, confirmamos a informação nos dada de que a estrada após o cruzamento era de ripio e assim seria até o posto argentino da fronteira, em San Sebastian. Pelo menos, o vento forte estava a nosso favor. Mal tínhamos que pedalar — a ventania nos empurrava, mesmo nas subidas. Claro que, quando a rodovia mudava de direção, o vento, de aliado, passava a inimigo. Em uma descida com vento de lado, a Sandra foi jogada ao chão, mas não se machucou.

39 km no meio do nada

39 km no meio do nada

E assim seguimos por uma paisagem inóspita. Uma coisa que ficou clara foi que uma amarração de bagagem que funciona no asfalto, não necessariamente se dá bem numa estrada de ripio, onde a trepidação é constante e os solavancos fortes. Tivemos que parar várias vezes para reforçar nós e reorganizar os volumes nas três bicicletas. Como se não bastasse, o bagageiro do Hélio quebrou e só aguentou o caminho com a ajuda dos deuses do cicloturismo.

A fronteira

A fronteira

Quando chegamos no lado chileno da fronteira, 39 km depois do cruzamento, uma mulher que tinha uma venda dentro de um ônibus nos informou que havia uma hospedaria próxima, mas que era cara, e que valia mais a pena ficar na do lado argentino. Apesar de não ter banheiro para clientes, permitiu que Sandra usasse o de sua casa. Seu marido também nos ajudou, conseguindo um parafuso que desse um pouco mais de firmeza ao bagageiro do Hélio, de maneira que a estrutura aguentasse até chegarmos a Rio Grande, onde uma mecânico de bicicletas pudesse resolver o problema definitivamente.

Olá, pavimento, meu velho amigo!

Olá, pavimento, meu velho amigo!

Depois de um rápido trâmite no posto chileno, pedalamos por 16 km até o posto argentino, onde vi uma placa com as duas palavras mais bonitas da língua espanhola: “Inicio pavimento”. Na entrada do posto, conhecemos uma casal de suíços, Daniel e Jaqueline. Eles nos disseram que o posto tinha uma sala com água e aquecimento, onde ciclistas e outros viajantes podiam pernoitar. Como não falavam espanhol, pediram nossa ajuda para descobrir onde era.

Chegamos!

Chegamos!

Descobrimos o local, carimbamos nossos passaportes e fomos com eles até a sala, onde já havia um casal de Hong Kong (que viajava há três anos em bike) acampado. Depois de nos instalarmos, um casal de Buenos Aires que viajava de moto também chegou e todos nós passamos a noite no posto.

 

 

Não tem pra ninguém!

Dormindo no posto

Dormindo no posto

Pedal patagônico: Trecho 2.1 – Punta Arenas –> Porvenir

26/01/2016
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A costanera de Punta Arenas

Apesar de termos chegado em Punta Arenas com dois dias de antecedência, não pudemos sair mais cedo (o plano original era ficar apenas três, o que, percebemos, é mais que suficiente para conhecer a cidade), porque tínhamos que esperar nosso amigo Hélio, que se juntaria a nós pelo resto da viagem. Ele só chegaria no dia 6 de janeiro, à noite. Assim, tivemos que achar coisas para fazer em Punta Arenas. Logo no primeiro dia, demos uma rodada pelo centro da cidade, comemos churros, passeamos um pouco pela costanera e jantamos num lugar chamado Fusiones.

Píer na costanera que serve de pouso para os pássaros

Píer na costanera que serve de pouso para os pássaros

Não gostamos do serviço nesse restaurante, mas aconteceu algo engraçado. A garçonete trouxe pão e manteiga, mas queríamos que ela levasse embora. Então pedimos que retirasse o cubierto. Ela nos olhou de maneira estranha, retirou todos os talheres e deixou o pão. Ficamos um pouco irritados e questionamos por que ela tinha feito isso. A moça respondeu que tínhamos pedido para retirá-los. Foi aí que descobrimos que cubierto não é o mesmo que o nosso couvert — significa talheres.

 

As nuvens de Punta Arenas

As nuvens de Punta Arenas

Reparamos logo que Punta Arenas é uma cidade cara, mas outra peculiaridade que notamos foi que parece haver um pouco de má vontade com o turista, como se a ideia fosse arrancar o máximo de dinheiro dele. Por exemplo, um dia, lá pelas 12:30, vimos uma placa anunciando menu (prato executivo) a 6.500 pesos chilenos. Entramos no restaurante (Santino’s), onde literalmente todos os clientes estavam comendo o menu e o pedimos. O garçom informou que já havia acabado e nos passou o cardápio, onde o prato mais barato custava 13.500. Fomos embora, obviamente.

Chamada de gente grande

Chamada de gente grande

Nosso segundo dia foi bem relaxado, com mais passeios pelo centro. Aproveitamos também e compramos um tour para o Parque Nacional Pali Aike, que fica a 90 km de Punta Arenas, para o dia seguinte. Pali aike significa “lugar (aike) para onde os maus espíritos vão (pali)” em tehuelche (ou aonikenk). Descobrimos ainda um bom lugar para comer rápido, barato e com boa qualidade: o Lomito’s. Achamos ainda uma loja de bicicletas, a Bike Service Patagonia, para dar uma olhada na minha transmissão dianteira e no passador de marchas da Sandra, que estavam dando problemas. Resolvemos deixar as duas bicicletas para uma revisão geral.

O Parque Nacional Pali Aike é um lugar onde existia um vulcão, agora extinto, e a paisagem consiste de pampa e áreas cobertas por lava antiga. Apesar de haver alguns lugares interessantes e momentos onde realmente parece que você está em outro planeta, não ficamos muito entusiasmados com o passeio. O forte vento que soprou durante todo o tempo pode ter contribuído para isso. A Sandra até sugeriu que mudássemos a definição de “armadilha de turista” para “passeio em Pali Aike”. Sugestão corroborada por uma rápida pesquisa com os outros participantes do tour: uma canadense e a mãe e a filha de uma família alemã. No final, o passeio incluiu o que chamei de a “experiência tehuelche”: tivemos que andar dois ou três quilômetros, incluindo uma subida, contra o vento até chegar à van. Para não dizer que tudo foi ruim, aprendemos muito sobre a história dos povos indígenas da região e sobre o Chile com a nossa guia, a Jasmina.

Paisagem de Pali Aike

Paisagem de Pali Aike

Sandra Tehuelche

Sandra Tehuelche

No quarto dia, fomos à Bike Service Patagonia pegar nossas bicicletas. Descobrimos que, apesar de supostamente terem realizado uma revisão, os problemas que havíamos relatado permaneciam. Tivemos que ressaltar isso e esperar que o dono e mecânico-chefe,  Claudio Botten, resolvesse as questões. Acabei trocando a transmissão dianteira. Na hora de pagar, a gerente queria me cobrar por “mão de obra”. Questionei se isso não fazia parte da revisão e ela acabou cedendo. De posse das bikes, visitamos alguns pontos mais turísticos da cidade, como o cemitério, considerado o sexto mais bonito do mundo. Não sei como se chega a um ranking desses, mas minha impressão foi de que a beleza fúnebre de Punta Arenas foi superestimada. Fomos também na zona franca da cidade, uma coleção de lojas que fica numa área isenta de impostos. Algumas coisas eram mais baratas, outras nem tanto. Compramos dois extensores e uma meia térmica.

Explorando "outro mundo" em Pali Aike

Explorando “outro mundo” em Pali Aike

Já hospedados no Kloketen, conhecemos duas hóspedes chilenas: Paulina e Valentina. Elas estavam viajando pela Terra do Fogo e depois iriam para o norte, para Puerto Natales. Estavam tentando reservar acampamento no parque Torres del Paine, mas não tinham informações precisas sobre a distância das trilhas etc. Ficamos felizes em compartilhar nossas informações com elas.

No dia 7, nosso quinto dia em Punta Arenas, Hélio bateu à nossa porta. Passeamos com ele pela costanera, pelo centro (apresentando-o ao Lomito’s), fomos novamente à zona franca, desta vez para comprar mantimentos para a viagem, e almoçamos num restaurante muito bom chamado Chumanguito. Hélio, sob orientação da Sandra, também iniciou sua peregrinação pelas lojas de material esportivo à procura de luvas impermeáveis, mas não teve sucesso.

Hélio em Punta Arenas

Hélio em Punta Arenas

Reunião na costanera

Reunião na costanera

No dia seguinte, saímos às 8:15 da manhã para pegar a barca que nos levaria a Porvenir, do outro lado do estreito de Magalhães. A viagem dura duas horas e só é realizada se o mar apresenta condições favoráveis. Por sorte, esse era o caso naquela manhã. Se a viagem tivesse sido cancelada, teríamos que esperar mais um dia, porque, em Punta Arenas, a travessia só é realizada uma vez por dia, às 9 da manhã. Mais ao norte, em Punta Delgada, na Argentina, há uma barca a cada 15 minutos, mas, lá, o trecho a se cruzar é bem mais curto.

Comendo bem no Chumanguito

Comendo bem no Chumanguito

Pedal patagônico: Trecho 1.3 – Villa Tehuelches –> Punta Arenas

23/01/2016

No dia 3 de janeiro, domingo, despertamos às 4:45 da manhã (os franceses levantaram às 5 h) e levantamos acampamento. Às 6 h, com o sol já subindo no horizonte, partimos os quatro rumo a Punta Arenas. Como previsto, so franceses logo abriram distância e suiram no horizonte, mas pedalar na rodovia vazia e sem vento foi bem legal e proporcionou fotos bastante bonitas, como essa:

"Riding into the world, all alone"

“Riding into the world, all alone”

Nossa ideia era fazer uma parada em Gobernador Philips, a 50 km, onde nos disseram que havia um posto de gasolina e uma lanchonete. De fato, havia um posto de gasolina no caminho, mas desativado, a lanchonete estava fechada. Quando batemos na porta, fomos saudados por dois cachorros, um grande e um pequeno, com cara de poucos amigos, e uma ovelha. Resolvemos nos afastar e procuramos abrigo em outro ponto de ônibus, este bem menor do que aquele em que dormimos. Comemos nossos sanduíches e seguimos viagem.

P'roximos a Punta Arenas

Próximos a Punta Arenas

Nessa parte do trajeto, a rodovia volta para o nível do mar e costeia o oceano Atlântico. Ela vira uma reta que, junto com a paisagem um tanto quanto monótona, chega a dar sono. Assim fomos vencendo os quilômetros que nos separavam de Punta Arenas. Numa placa a 22 km da cidade, descobrimos que estávamos no Circuito Aonikenk (aonikenk era como os tehuelches se chamavam em sua própria língua e significa algo como ‘povo do sul’ ou ‘homens do sul’, que é o mesmo significado de tehuelche, só que este em mapuche).

 

Descansando antes de chegar

Descansando antes de chegar

Já dentro dos limites da cidade e cansados, fomos “brindados” com uma série de subidas e descidas na forma de viadutos. A essa altura, já havíamos percorrido mais de 90 km e aproveitamos para dar uma descansada nos pontos de ônibus novamente. Lá pelas 13 h, finalmente chegamos à rua Zenteno, onde fica o Hostal Kloketen. Foi um pouco confuso, porque o albergue fica no número 626, mas a rua começava no 400 e muito e ia diminuindo. Perguntamos a alguma spessoas, mas so resolvemos quando ligamos para o Kloketen e a Silvana nos disse que ficavam perto de uma cervejaria. Descobrimos que os números diminuiam e começavam a subir de novo. Como chegamos com dois dias de antecedência, Silvana não tinha lugar para nós, mas conseguiu um quarto numa outra hospedaria, a Karol, onde ficamos.

Pedal patagônico: Trecho 1.2 – Hotel Rio Rubens -> Villa Tehuelches

09/01/2016

IMG_20160102_111241623Na noite anterior, a dona do hotel havia pintado um cenário desolador quanto às chances de encontrar abrigo na ruta 9 antes de chegar a Punta Arenas. Já sabíamos disso pela nossa pesquisa prévia e pelas informações obtidas com um amigo da Naíra, do Domos, mas tínhamos perguntado na esperança de não estarmos tão bem informados. No mapa, havia indicação de mais dois hotéis ao longo da rodovia. Segundo a dona, um não existia mais e o outro era numa estrada secundária, de ripio (cascalho). O único povoado no caminho, Villa Tehuelches, não teria uma pensão ou albergue, mas provavelmente poderíamos armar nossa barraca em algum canto.

Na manhã do dia 2 de janeiro, saímos do Hotel Rio Rubens às 10 h com um vento de cauda que nos impulsionou estrada abaixo. Como queríamos pernoitar em algum lugar com um semblante de civilização, nosso plano era conseguri compeltar os 80 ou 90 km (as informações eram contraditórias) que nos separavam de Villa Tehuelches naquele dia. Antes, tentaríamos sondar as possibilidades de pernoite em Morro Chico, que ficava a 40 km do hotel, mas já sabíamos que as chances de haver algo além do posto dos carabineros (a polícia chilena) era remota.

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Morro Chico

Duas horas e meia depois de partirmos do hotel, chegamos a Morro Chico. O lugar era um antigo sítio arqueológico qu epodia ser visitado, mas hoje em dia não há nenhuma atividade no local, embora ainda seja possível subir a pedra. Como previsto, o único ponto de suporte era o posto dos carabineros, que está localizado lá por conta da proximidade com a fronteira da Argentina. O policial confirmou nossas informções e, ao contrário da dona e funcionárias do hotel Rio Rubens, que nos disseram ser muito raro ver ciclistas na rodovia, nos disse que já haviam passado vários cicloturistas naquelas semanas. Depois de usarmos, o banheiro do posto, comemos nossos sanduíches expostos ao vento incessante e continuamos viagem.

Lutando contra o vento

Lutando contra o vento

Ao longo da tarde, devido à mudança de curso da rodovia ou simplesmente ao seu capricho, o vento intenso passou a nos pegar de lado, dificultando em muito o progresso. O vento em si nem era o problema principal — as rajadas, bem mais fortes, é que complicavam tudo. Quando vinham, nos jogavam de próximo do acostamento para o meio da via e, às vezes, até para a pista oposta. Paramos váriaz vezes e cogitamos pedir abrigo numa das estâncias ou carona a um dos poucos veículos que passavam, mas desistimos e continuamos.

Depois de quatro horas (e um total de 82 km pedalados naquele dia), vimos com felicidade a placa que anunciava Villa Tehuelches, que, para a nossa alegria, mostrava, entre os serviços disponíveis no povoado, hospedagem. Logo na entrada da vila, à beira da estrada, haviam dois negócios. Uma cafeteria e uma venda. A funcionária da venda destruiu nosss esperanças, dizendo que não havia pensão ou albergue nem Villa Tehuelches. Tentamos convencê-la a nos deixar estender nossos sacos de dormir em algum depósito do estabelecimento, já que o prospecto de erguer a barraca naquele vento era tenebroso. Ela quase cedeu, mas sua mãe de coração empedernido vetou a possibilidade.

O carabinero de plantão explicou que a cidade ficava vazia no fim de semana (era domingo) e que poderíamos armar a barraca na Medialuna, local onde realizavam uma espécie de rodeio, ou no ponto de ônibus. Não havia viva alma nas ruas e quando pegamos uma mulher nos espiando pela janela de sua casa, ela rapidamente fechou a cortina A igreja, segundo o policial, ficava fechada e o padre só vinha uma vez por mês, mas quando passamos por ela, havia um grupo entrando — tinham vindo de Punta Arenas visitar a Virgen de Los Pampas. Disseram que a igreja ficava sempre aberta e que podíamos estender nossos sacos de dormir lá se o carabinero concordasse. Ele respondeu que não sabia quem eram essas pessoas e não poderia concordar, a não ser que elas viessem conversar com ele.

Acampando no ponto de ônibus de Villa Tehuelches

Acampando no ponto de ônibus de Villa Tehuelches

Nesse meio tempo, Sandra encontrou um casal de cicloturistas franceses, Julia e Laurent. Após confabularmos sobre as possibilidades de Villa Tehuelches, Laurent investigou o ponto de ônibus e o aprovou. Nos instalamos e conversamos sobre as respectivas experiências. Os franceses haviam tirado um sabático estendido — direito garantido na legislação trabalhista francesa — e estavam viajando há 12 meses, tendo começado na Colômbia. Eles ainda tinham mais um mês de jornada. Combinamos despertar cedo na manhã seguinte para sairmos às 6 h e, assim, evitarmos o vento, que começava a ficar mais forte lá pelas 10 h, quando o ar aquecido pelo sol sube e cria uma zona de baixa pressão que arrasta os ventos frios dos Andes para os pampas. Tínhamos nossas dúvidas se conseguiríamos acompanhá-los — Julia e Laurent haviam saído de Puerto Natales naquele dia e percorrido 150 km em cerca de seis horas.

 

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